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Entrelaces do inconsciente

Obra de Belinda Mandelbaum traça panorama dos princípios que organizam as relações familiares sob a ótica da psicanálise; textos oferecem visão geral de metodologia e da teoria

abril de 2009
Maria Consuêlo Passos
A FAMÍLIA, 1918, ÓLEO SOBRE TELA DE EGON SCHIELE/ÖSTERREICHISCHE GALERIE BELVEDERE, VIENA
No Brasil, a psicanálise voltada para o atendimento da família e melhor compreensão dos vínculos e vicissitudes desse grupo complexo tem, pouco a pouco, garantido seu lugar no contexto clínico e teórico. Essa inserção, no entanto, não se deu tão facilmente. Embora Freud tenha procurado observar as interferências a que os sujeitos estavam submetidos na convivência com os grupos e com a cultura, a maior parte dos seus seguidores privilegiou a visão do indivíduo, e o estudo das inter-relações foi, por longo tempo, negligenciado. Mesmo não se tendo voltado para a elaboração de trabalhos específicos sobre a família, foi ele quem criou as bases para o surgimento dessa área de estudos. Os textos em que aborda inconsciente, complexo de Édipo, teorias da sexualidade e noções sobre técnica – sobretudo transferência, contratransferência e interpretação – constituem os eixos centrais, que sustentam a psicanálise da família. Foram estas concepções, associadas a estudos antropológicos e sociológicos, que incentivaram pioneiros do estudo de grupo e de família a expandir o campo da psicanálise, criando uma nova perspectiva para tratar dos conflitos e sofrimentos inerentes aos laços familiares. Desde seu surgimento, na segunda metade do séc. XX, esta abordagem vem ocupando alguns pensadores que têm o intuito de consolidá-la cada vez mais. Psicanálise da família, de Belinda Mandelbaum, da coleção Clínica Psicanalítica, segue essa direção, oferecendo uma visão geral dos princípios que a organizam teórica e metodologicamente.

O livro traz implícita a mensagem de que o olhar para as relações e seus sentidos intrapsíquicos pode ser uma forma de resistir à imposição de sofrimentos. Na primeira parte, a autora traça um panorama, expondo a interdisciplinaridade dessa temática. Embora seja uma discussão rápida, sua intenção é evidenciar a impossibilidade de uma compreensão da organização e dinâmica psíquica da família, sem levar em conta fenômenos sociais e suas transformações, processadas à medida que redes sociais recriam seus significados e ampliam possibilidades de vida em grupo. A segunda parte do livro apresenta a teoria sistêmica, apresentando-a como pioneira nessa área. A abordagem surgiu de pesquisas que buscavam compreender a irracionalidade do autoritarismo e da repressão, tão habitual nas instituições do pós-guerra. Na Califórnia, um grupo liderado pelo antropólogo Gregory Bateson (1904-1980) descobriu que a esquizofrenia não era uma “produção independente”: a pessoa adoecia em função dos padrões relacionais mantidos no interior de sua família. Nesse sentido, o tratamento deveria considerar a teoria geral dos sistemas, que concebe o indivíduo como peça de uma engrenagem complexa, da qual vários elementos participam, com funções que se comunicam e se transformam permanentemente.
DIVULGAÇÃO
PSICANÁLISE DA FAMÍLIA - Belinda Mandelbaum. Coleção Clínica Psicanalítica. Casa do Psicólogo, 2008. 109 págs. R$ 18,00
Na seqüência a autora, trata da psicanálise da família com base em duas vertentes teóricas e técnicas: a concepção da psicanalista Melanie Klein (1882-1960) e a psicanálise dos vínculos. Embora cada uma tenha suas especificidades conceituais, ambas se fundamentam na idéia de que a interação entre os psiquismos individuais organiza um aparelho psíquico do grupo, um princípio que revoluciona os estudos de família por dois aspectos centrais. Primeiro o que denuncia que aquilo que se expressa nas relações precisa ser compreendido também a partir de conflitos inconscientes entre os membros do grupo. Assim, todos os indivíduos estão implicados na produção da doença. Nesse caso, aquele “paciente identificado” não pode ser o único alvo do tratamento. O foco terapêutico deve incidir sobre todos, uma vez que os conflitos originários da doença não estão encontrando espaço para circulação. Para tanto, é necessário que o analista faça uso das noções de enquadre, transferência e interpretação, aplicadas, evidentemente, à realidade das relações.

Ao referir-se à psicanálise kleiniana da família, Mandelbaum afirma que o objetivo dos seus procedimentos terapêuticos é levar cada integrante do grupo a recuperar aspectos projetados nos diferentes sujeitos com os quais interage na família. Assim oferece condições para que o sujeito possa criar seu próprio espaço, enriquecê-lo com sua singularidade e desobstruir seu processo de subjetivação, até então travado pelas fantasias e expectativas vindas de outros: pai, mãe, irmãos etc.

Abordando a psicanálise dos vínculos, a autora lembra que foi o próprio Freud (1856-1939) quem deixou clara a impossibilidade de pensar o ser humano fora das relações com seus iguais. O trabalho que prioriza os vínculos vem sendo consolidado na França por estudiosos como René Kaës. Alguns psicanalistas argentinos, como Isidoro Berenstein e Janine Puget, também têm contribuído para o avanço dessa abordagem, criando, paralelamente, noções teóricas e uma metodologia clínica. Segundo Mandelbaum, essa visão ressalta o caráter múltiplo da constituição subjetiva, evidenciando não só o sujeito do inconsciente, mas aquele que emerge dos vínculos e da história individual e social.