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30 de abril de 2009
Entrelaces do inconsciente
Obra de Belinda Mandelbaum traça panorama dos princípios que organizam as relações familiares sob a ótica da psicanálise; textos oferecem visão geral de metodologia e da teoria
por Maria Consuêlo Passos
A FAMÍLIA, 1918, ÓLEO SOBRE TELA DE EGON SCHIELE/ÖSTERREICHISCHE GALERIE BELVEDERE, VIENA
No Brasil, a psicanálise voltada para o atendimento da família e melhor compreensão dos vínculos e vicissitudes desse grupo complexo tem, pouco a pouco, garantido seu lugar no contexto clínico e teórico. Essa inserção, no entanto, não se deu tão facilmente. Embora Freud tenha procurado observar as interferências a que os sujeitos estavam submetidos na convivência com os grupos e com a cultura, a maior parte dos seus seguidores privilegiou a visão do indivíduo, e o estudo das inter-relações foi, por longo tempo, negligenciado. Mesmo não se tendo voltado para a elaboração de trabalhos específicos sobre a família, foi ele quem criou as bases para o surgimento dessa área de estudos. Os textos em que aborda inconsciente, complexo de Édipo, teorias da sexualidade e noções sobre técnica – sobretudo transferência, contratransferência e interpretação – constituem os eixos centrais, que sustentam a psicanálise da família. Foram estas concepções, associadas a estudos antropológicos e sociológicos, que incentivaram pioneiros do estudo de grupo e de família a expandir o campo da psicanálise, criando uma nova perspectiva para tratar dos conflitos e sofrimentos inerentes aos laços familiares. Desde seu surgimento, na segunda metade do séc. XX, esta abordagem vem ocupando alguns pensadores que têm o intuito de consolidá-la cada vez mais. Psicanálise da família, de Belinda Mandelbaum, da coleção Clínica Psicanalítica, segue essa direção, oferecendo uma visão geral dos princípios que a organizam teórica e metodologicamente.

O livro traz implícita a mensagem de que o olhar para as relações e seus sentidos intrapsíquicos pode ser uma forma de resistir à imposição de sofrimentos. Na primeira parte, a autora traça um panorama, expondo a interdisciplinaridade dessa temática. Embora seja uma discussão rápida, sua intenção é evidenciar a impossibilidade de uma compreensão da organização e dinâmica psíquica da família, sem levar em conta fenômenos sociais e suas transformações, processadas à medida que redes sociais recriam seus significados e ampliam possibilidades de vida em grupo. A segunda parte do livro apresenta a teoria sistêmica, apresentando-a como pioneira nessa área. A abordagem surgiu de pesquisas que buscavam compreender a irracionalidade do autoritarismo e da repressão, tão habitual nas instituições do pós-guerra. Na Califórnia, um grupo liderado pelo antropólogo Gregory Bateson (1904-1980) descobriu que a esquizofrenia não era uma “produção independente”: a pessoa adoecia em função dos padrões relacionais mantidos no interior de sua família. Nesse sentido, o tratamento deveria considerar a teoria geral dos sistemas, que concebe o indivíduo como peça de uma engrenagem complexa, da qual vários elementos participam, com funções que se comunicam e se transformam permanentemente.
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Maria Consuêlo Passos é psicóloga, psicanalista e pesquisadora vinculada à Universidade de Paris V, especialista em análise familiar.