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Está com problemas para dormir? Vá acampar!

Luzes artificiais, típicas da cidade grande, podem afetar o relógio biológico e prejudicar a qualidade do sono

dezembro de 2014
Joel N. Shurkin
CossackVector/Shutterstock
Ao longo da maior parte da história da humanidade, seres humanos iam dormir pouco depois de o sol se pôr e acordavam ao amanhecer. Mesmo quando já existiam velas e depois as lâmpadas a óleo, as luzes eram fracas e as pessoas continuavam a dormir cedo.

Com Thomas Edison, surge a lâmpada incandescente e os hábitos de sono começam a mudar. Assim, se você tem problemas para dormir à noite ou é uma pessoa difícil de conviver de manhã, pode culpá-lo.

Cientistas da Universidade do Colorado em Boulder descobriram que viver de acordo com os horários do sol nos leva tanto a dormir quanto a acordar uma hora mais cedo. A mudança diminui a sensação de estar “grogue” pela manhã, porque ajuda a sincronizar nosso relógio interno à realidade do ambiente à nossa volta. O sol, portanto, regula o relógio biológico de acordo com o que seria seu estado natural, desfazendo a influência negativa das lâmpadas elétricas.

O descompasso entre o ambiente externo e o sono pode explicar por que até mesmo pessoas que nascem em áreas como o Alasca têm problemas para dormir nos longos dias de verão no Ártico e ficam deprimidas nas extensas noites de inverno.

No estudo feito no Colorado e publicado no periódico Current Biology, porém, os participantes não viviam rotinas tão extremas. “Não estávamos estudando pessoas com patologias do sono”, disse Kenneth Wright, especialista em psicologia integrativa, que participou do estudo. “A quantidade de sono que eles tiveram não mudou. O que mudou foi o momento em que dormiam e a configuração do seu relógio interno com relação ao sono.”

Foram oito participantes adultos por volta dos 30 anos. Os pesquisadores os seguiram por uma semana enquanto cumpriam suas rotinas normais. Os voluntários passavam a maior parte do tempo em ambientes fechados enquanto trabalhavam, estudavam, comiam e dormiam. A maior parte das luzes ao seu redor era artificial. 

Depois, os participantes foram acampar. As condições de luz e de sono eram medidas a cada dia. Um hormônio chamado melatonina foi contabilizado de hora em hora, por 24 horas, em duas ocasiões: a primeira após a semana de rotina normal e a segunda após a semana no acampamento.

A melatonina é conhecida como “o hormônio da escuridão”, utilizada por cientistas para medir as respostas fisiológicas que organismo tem a ciclos de exposição à luz e ao escuro.

A quantidade de melatonina aumenta naturalmente a noite e diminui durante o dia, tendo sua produção suprimida pela luz do dia. O hormônio leva à diminuição da temperatura corporal, fazendo com que seja mais fácil dormir.

No acampamento, os voluntários tinham acesso apenas à luz solar durante o dia e fogueiras durante a noite. Wright estima que a luz do sol tenha sido quatro vezes mais intensa do que a luz artificial dos ambientes fechados do dia a dia dos participantes. As características da luz também mudavam, indo da luz branca brilhante do meio-dia ao dourado que precede o pôr do sol.

Depois daquela semana, os pesquisadores descobriram que a quantidade de melatonina começava a aumentar duas horas antes e que os participantes passaram a dormir mais de uma hora mais cedo. “O corpo estava sendo ‘recalibrado’”, explica Wright.

Na rotina normal dos voluntários, quando acordavam pela manhã, o nível de melatonina e o horário do ambiente estavam em conflito. Estavam acordando, mas o hormônio sinalizava que ainda deveriam estar dormindo. Segundo Wright, isso pode explicar por que continuavam a se sentir sonolentos. Quando eles estavam ao ar livre, o ciclo solar e a quantidade de melatonina estavam mais alinhados: os níveis de hormônio diminuíam aos poucos enquanto o sol nascia, antes de os voluntários acordarem.

Outros cientistas do Colorado afirmam que a pequena quantidade de participantes limita o que pode ser concluído do estudo, mas os resultados ajudam a justificar a necessidade de mais experimentos sobre o assunto.

E também a necessidade de acampar com mais frequência.

Além de impactar a qualidade do sono e o relógio biológico, o contato com o verde aumenta a expectativa de vida e diminui os sintomas de diversas doenças, inclusive a depressão. Saiba mais na edição de dezembro de Mente e Cérebro, A cura pela natureza.

(O texto original foi publicado pelo Inside Science News Service)

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