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Estudo brasileiro é premiado na Alemanha

Pesquisadores mapearam focos de dor no córtex sensitivo por meio de estimulação magnética transcraniana. Técnica ajudará a selecionar pacientes candidatos a implantes de eletrodo cerebral

junho de 2007
Miguel Boyayan
Estimulação magnética transcraniana ajuda médicos a escolher intervenção mais eficaz para o alívio da dor neuropática
(Agência Fapesp) – Um estudo sobre o uso de estimulação magnética transcraniana (EMT) para o mapeamento de focos de dor na região do córtex sensitivo, feito por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), foi considerado o melhor trabalho apresentado no 2º Congresso Internacional de Dor Neuropática, realizado de 7 a 10 de junho, na Alemanha.

O trabalho, que concorreu com outros 450 – os melhores foram publicados nos anais do encontro –, girou em torno de vítimas de dor causada por lesão no plexo braquial, região que, localizada no pescoço, conta com um conjunto de conexões elétricas que ligam o membro superior à medula espinhal.

A maior parte dos pacientes com lesão na região do plexo braquial é vítima de acidentes de motocicleta. O indivíduo perde o movimento do braço afetado, apesar de o cérebro continuar mandando impulsos de comando, que em alguns casos geram dor.

De acordo com os coordenadores do trabalho, o neurocirurgião e professor titular do Departamento de Neurologia do IPq, Manoel Jacobsen Teixeira, e o chefe do Grupo de Estimulação Cerebral da FMUSP, o psiquiatra Marco Antonio Marcolin, dos tratamentos existentes para a lesão, a instalação de eletrodos nessa região do cérebro, conhecida como córtex sensitivo, é um dos mais comuns.
Por meio da técnica de EMT, o objetivo do estudo foi identificar a real necessidade de implantação desses aparelhos no cérebro dos pacientes. “O eletrodo funciona como uma espécie de marcapasso que emite pulsos elétricos para normalizar a dor”, disse Marcolin.

“Após a lesão, é como se o braço não existisse mais. O paciente perde os movimentos, mas a dor persiste na maioria dos casos. Com isso, não adiantaria amputar o braço, por exemplo, uma vez que a dor não está no membro e sim no cérebro”, explicou.

Como nem todos os pacientes respondem adequadamente à implantação dos eletrodos, os pesquisadores acompanharam 35 pacientes, entre 18 e 79 anos. Foi mapeada a região lesionada do cérebro dos pacientes por meio da EMT, estímulo magnético utilizado desde 1999 no Hospital das Clínicas da FMUSP para diversas aplicações.

“Identificamos um aumento de área significativo no córtex sensitivo em cerca de 40% dos pacientes, o que justificaria a colocação do eletrodo para sanar a dor apenas nessas pessoas. Nos pacientes que não apresentaram esse aumento de área, o estudo verificou que outras técnicas não localizadas no cérebro, como por exemplo na medula espinhal, podem ser mais indicadas”, disse Marcolin.
Atualmente, a colocação dos eletrodos é feita sem a realização prévia desse tipo de exame magnético. “Agora, temos uma valiosa ferramenta que evitará a colocação de um eletrodo que poderia não funcionar. O trabalho nos permitiu dar um passo importante para esse tratamento, que poderá ser diagnosticado de maneira indolor e não invasiva”, destacou o chefe do Grupo de Estimulação Cerebral da FMUSP.

Pioneirismo em dor neuropática
Segundo Teixeira, uma das principais conquistas do estudo é que, a partir de agora, “a EMT passará a ser utilizada como um critério seguro de prognóstico de doentes candidatos a implantes de eletrodos para a estimulação cerebral ou à infusão de fármacos na medula espinhal para o conseqüente alívio da dor”.

“Esse é um achado inédito em todo o mundo, que nos deu o privilégio de ganhar o primeiro prêmio do Congresso Internacional de Dor Neuropática, que reúne os maiores expoentes internacionais no assunto. O evento reúne anualmente profissionais de diferentes países, responsáveis pela avaliação de métodos destinados à quantificação, tratamento e mecanismos de ocorrência da dor neuropática”, disse Teixeira.

Com a delineação de áreas que são potenciais alvos dos procedimentos, haverá também economia em números de eletrodos implantados. “Com a técnica, poderemos excluir de imediato outras intervenções terapêuticas, como os métodos cirúrgicos a céu aberto, que são extremamente caros, danosos e que podem resultar em complicações irreversíveis ao paciente”, ressaltou Teixeira.
Diferentes aplicações clínicas da estimulação magnética transcraniana são realizadas no Hospital das Clínicas. Com os resultados do trabalho apresentado no congresso, a técnica está em estágio mais próximo de aplicação no Sistema Único de Saúde.

Outras aplicações clínicas da EMT são realizadas há oito anos no Instituto de Psiquiatria e não são reembolsadas pelo SUS. Nesse momento, os pesquisadores aguardam aprovação do Conselho Federal de Medicina para a incorporação da técnica como procedimento médico no sistema.

Ao lado do trabalho premiado, um livro sobre estimulação magnética cerebral, intitulado Transcranial brain stimulation for treatment of psychiatric disorders, foi lançado no começo do mês por Marcolin e Frank Padberg, professor do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia da Universidade de Munique, na Alemanha.

Em 14 capítulos, a publicação traz resultados de pesquisas do Grupo de Estimulação Cerebral do Instituto de Psiquiatria da FMUSP e artigos de especialistas sobre outras aplicação da EMT, incluindo possíveis cenários futuros das pesquisas nessa área do conhecimento.