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Estudo com mais de mil voluntários sugere que não há relação entre autismo e anatomia cerebral

Maior pesquisa de neuroimagem com autistas feita até hoje questiona resultados de trabalhos anteriores

novembro de 2014
Akesak/Shutterstock
Pessoas com autismo têm fundamentalmente a mesma constituição cerebral daquelas sem a síndrome, constata o psicólogo e pesquisador Ilan Dinstein, da Universidade Ben-Gurion do Negev, em Israel. Um dos autores do maior estudo de imagens neurais feito até hoje, ele afirma que pesquisas anteriores que tentaram explicar a síndrome por meio de diferenças no cérebro cometeram falhas graves.

Dinstein submeteu a ressonância magnética funcional mais de mil indivíduos entre 6 e 35 anos: 500 com o distúrbio e 500 saudáveis (grupo de controle). Ele e sua equipe dividiram cada cérebro (figurativamente) em 180 regiões e as investigaram minuciosamente, além de avaliar várias medidas anatômicas, como volume, área superficial e espessura de cada região (e não apenas o tamanho ou determinada estrutura, como a amígdala, por exemplo). E – pela primeira vez – examinaram metodicamente as diferenças dentro de cada grupo, em comparação com a heterogeneidade entre ambos, segundo os autores.

Os cientistas não encontraram nenhuma alteração estatisticamente significativa no volume do cérebro entre o grupo de controle e o de pessoas com autismo. O psicólogo alerta para o fato de que o órgão varia drasticamente de tamanho de uma pessoa para outra. A diferença pode chegar a 90% dentro de um grupo. Por incrível que pareça, ele garante, o cérebro de alguns é quase o dobro do tamanho do de outros.

Segundo os pesquisadores, hipóteses anteriores sugeriam que a síndrome poderia estar associada com maior quantidade de massa cinzenta intracraniana (o material do próprio cérebro) e de substância branca (tecido nervoso) ou com maior volume da amígdala. Alguns cientistas, por outro lado, consideraram que o transtorno poderia estar relacionado com menor cerebelo, corpo caloso e tamanho do hipocampo.

Dinstein mostra que esse tipo de pesquisa é inconsistente por vários fatores. Segundo ele, a utilização de amostras pequenas (20 ou 30 voluntários), a tendência a se concentrar em uma área específica do cérebro (como a amígdala), a pressão para publicar resultados positivos e o fato de não observar com cuidado as grandes diferenças anatômicas naturais entre cérebros podem distorcer os resultados. O psicólogo afirma que os cientistas não desconhecem esses fatos, mas muitos optam por não considerá-los nos estudos.

“Há resultados tão incongruentes que alguns grupos de pesquisa afirmaram ter encontrado amígdala maior em pessoas com autismo, enquanto outros apontaram o contrário”, alerta. Dinstein argumenta que o distúrbio engloba diferentes síndromes e se apresenta de várias formas, numa gradação que vai de leve a grave. “Não podemos ser ingênuos e esperar uma resposta única para todos os casos. Apenas medidas cerebrais não são suficientes para identificar o autismo. Suas origens, evidentemente, estão em vários lugares”, conclui no artigo publicado na Cerebral Cortex.

Saiba mais sobre o tema na edição Autismo da Coleção Doenças do Cérebro.

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