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Eu, mamãe e os meninos: filme trata da busca pela identidade pessoal com humor

Na obra, a ligação narcísica do protagonista com a mãe limita suas próprias escolhas e até sua vida sexual

julho de 2014
Erane Paladino
Divulgação
Apesar de vivermos hoje num mundo em que é possível estabelecer diálogos abertos à diversidade, na ânsia de atender às demandas contemporâneas, não raro as pessoas tendem a perder profundidade e densidade ao tratar desse tema. Entre milhões de estímulos e apelos que valorizam a imagem, o grande desafio parece estar em não perder de vista a reflexão cuidadosa sobre quem de verdade somos, o que queremos e o que podemos ser, bem como pensar sobre nosso lugar no mundo. Esse percurso solitário exige de cada um o confronto com aquilo que sonha, possíveis perdas e alguns desencantos. Eu, mamãe e os meninos fala dessa descoberta de um jeito bem-humorado.

Trata-se de um trabalho autoral, em que Guillaume Galianne, ator principal, é também diretor e protagonista. O título original em francês, aliás, leva o nome do criador, “Les garçons et Guilaume à table!!” – Meninos e Guilaume, à mesa!! – referência à frase usada pela mãe, que distingue claramente o protagonista dos “meninos da família”. 

“Minha mãe é perfeita, não tem defeito algum”, diz o protagonista logo de início. Para não tratar o assunto dentro de espaço e do tempo reais, Guillaume mostra sua história desde a infância e nas diferentes épocas da vida, interpretando a si mesmo nas diversas idades.

A obsessão e o fascínio pela mãe o levam a imitar seus gestos e empenhar-se constantemente para não magoá-la, assumindo uma obediência irrestrita a ela. A atitude passiva apoiada num modelo feminino inatingível e idealizado conduz seu modo de ser e pensar. Para traduzir essa relação fusionada e sem contornos, o ator opta por representar também o personagem da mãe e em seus solilóquios traz sua presença como interlocutora imaginária ou seu alter ego. O título deixa claro o sentimento de pertencer a um lugar exclusivo na família: se não está com os irmãos quando é chamado pela mãe, não se identifica com eles e, portanto, passa a buscar no comportamento das mulheres seu modelo de identificação.

Sua vivência também parece bastante diversa da dos outros meninos da casa. Em uma viagem que faz sozinho à Espanha, aprende os passos da dança flamenca imitando trejeitos femininos. Na escola sofre bullying e é discriminado. Essas circunstâncias o levam a crer ser homossexual, mas suas tentativas amorosas com outros homens são repletas de frustrações. Em seu diálogo fantasioso com sua mãe, tenta encontrar uma saída para a própria vida. Temas como solidão e o sofrimento, porém, são abordados de forma leve e bem-humorada. Nessa caminhada em busca de si mesmo, resolve escrever uma peça teatral que inspira a produção do filme.

Para além de qualquer retrospectiva factual, o trabalho pretende transmitir as impressões e marcas psíquicas de um rapaz em sua experiência de vida, na ânsia de descobrir-se. Num contraponto a clichês e apelos comerciais, mostra com delicadeza o difícil processo de construção da identidade pessoal e sexual na luta por se diferenciar de uma ligação narcísica com a mãe.

Conceitualmente é importante lembrar que sexo e sexualidade não são sinônimos, mas aspectos da condição humana que se complementam. A antropologia reconhece o sexo no campo do biológico e, portanto, muito distante, em termos de desenvolvimento, das questões da sexualidade e da constituição da identidade de gênero. Para Freud, a sexualidade envolve a busca de prazer e os investimentos libidinais presentes desde os primórdios da vida.

Nos primeiros meses, a dependência materna e o prazer na amamentação seriam os pilares para o amadurecimento afetivo e para a vida psíquica. A formação da identidade depende de laços e modelos a serem trabalhados através dos chamados processos de identificação. Nos primeiros anos de vida, a imitação permite a incorporação desses referenciais externos e a assimilação das experiências, valores e padrões sociais. Os laços afetivos e a sensação de segurança são fundamentais para garantir esse percurso de desenvolvimento.

O psicanalista inglês Donald Winnicott acredita numa ligação primitiva absoluta com a mãe que aos poucos caminha para a dependência relativa. No início desse processo, os chamados “objetos transicionais” exercem a indispensável função de acolhimento diante dos primeiros movimentos de separação com a mãe e com o meio externo. É nesse período que o bebê vivencia oscilação entre estados de integração e não integração que contribuem na discriminação eu/não eu e contribui na trilha que leva da dependência relativa para a independência.  

A valiosa história de experiências boas introjetadas facilita a conquista da confiança, elemento primordial para a evolução mental. Apropriar-se desse recurso e acreditar nas próprias potencialidades será o motor básico para o amadurecimento e para uma vida criativa. As teorias psicanalíticas valorizam o reconhecimento do amor através da superação de medos e ansiedades muito antigas. Por essa razão que o laço mãe/bebê é tão significativo. Mas também é necessário que a chamada mãe suficientemente boa saiba reconhecer quando surgirem necessidades de autonomia do bebê, propícias na construção de um espaço psíquico próprio, diferenciado da mãe.

Até dado momento, a relação de Guillaume com a mãe parece estagnada num estágio rudimentar de indiferenciação. O medo de perder o amor materno e o lugar privilegiado na relação com ela impedem o movimento necessário de contraposição e separação que permite o desenvolvimento da própria identidade, como se a mente do rapaz fosse refém da necessidade de atender a expectativas da mãe. O ganho secundário dessa condição talvez esteja em manter fantasias de ser único e preferido.

O preço está em não crescer emocional e psiquicamente. Enquanto se mantém prisioneiro, não consegue viver a dor da separação, a incompletude necessária que abre o espaço para a manifestação de seus próprios desejos, sentimentos, escolhas e de um mundo mental criativo que no adulto se revela na capacidade produtiva, na imaginação, nas escolhas e na vida sexual. O percurso do rapaz, porém, revela saídas – e justamente pela via do encontro com o outro. Assim como a vida sempre nos surpreende quando estamos abertos para as transformações e para o novo, o filme também revela no final um despertar de sentimentos inesperados em Guillaume.

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