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Eu não creio em bruxas, mas...

Apesar de toda a tecnologia que nos cerca, a fé em manifestações sobrenaturais permanece até mesmo entre cientistas

junho de 2012
O CÍRCULO MÁGICO, ÓLEO SOBRE TELA, JOHN WILLIAM WATERHOUSE, 1886, GALERIA TATE BRITAIN, LONDRES
por Thomas Grüter

Vivemos em tempos de busca de comprovações. No entanto, a astrologia, a vidência e a magia não perderam sua atratividade. Pelo contrário: no Brasil não há levantamentos específicos sobre o tema, mas muita gente ainda bate três vezes na madeira para espantar o azar e certamente vai repetir a roupa que acredita lhe trazer sorte, principalmente em dia de jogo decisivo da Seleção Brasileira. Nem mesmo cientistas, preocupados com comprovações, estão livres de superstições: em 2008, Richard Coll e seus colegas da Universidade de Waikato, em Hamilton, Nova Zelândia, entrevistaram 40 representantes de diversas disciplinas – entre eles, físicos, químicos e biólogos – sobre sua opinião a respeito de fenômenos sobrenaturais. Anonimamente, vários reconheceram a crença no efeito curativo de pedras preciosas, na existência de espíritos e extraterrestres, quase sempre com base em experiências pessoais ou em relatos convincentes. Alguns afirmaram que amigos e parentes haviam sido curados de graves doenças após o apelo a um poder maior. Os céticos, por sua vez, justificavam a descrença recorrendo a considerações teóricas.

Observando esses dados podemos pensar que, apesar de toda a tecnologia que nos cerca, a fé em manifestações sobrenaturais permanece e muita gente continua imaginando que eventos concomitantes têm relação causal entre si mesmo que, na verdade, sejam independentes. Quem foi bem-sucedido em diferentes situações e por fim percebe que esteve sempre usando a mesma jaqueta nesses momentos provavelmente logo vai considerá-la o seu talismã pessoal – sem procurar as causas reais do sucesso.

Em 1987, o pesquisador Koichi Ono, da Universidade Komazawa, em Tóquio, espalhou sobre uma mesa três caixas, cada uma com uma alavanca na parte superior. Um contador em uma lateral móvel saltava em intervalos aleatórios para o próximo número mais alto e o movimento era acompanhado de um zumbido e uma luz vermelha que acendia. Além disso, três lâmpadas sempre voltavam a piscar ao acaso. Os 20 voluntários que participaram do estudo deviam obter o valor mais alto possível no contador por meio de qualquer comportamento, de preferência criativo. Dois participantes desenvolveram, no decorrer do experimento, algo semelhante a um comportamento supersticioso, um deles especialmente marcante: certa vez, o contador se moveu justamente quando a mulher estava pulando da mesa – em seguida, ela passou a saltitar incansavelmente para elevar de novo o resultado. Quando tocou o teto com o sapato na mão, a lâmpada também se acendeu, o zumbido soou e um ponto adicional surgiu no contador. Então a voluntária passou a se esticar, apontando o sapato para o teto ao pular até desistir antes do término do experimento – provavelmente por exaustão, como escreveu o coordenador do estudo.

Koichi Ono concluiu que um ritual pode reforçar o próprio comportamento, principalmente se a pessoa o repete seguidamente, pois nesses casos a probabilidade é maior de que a situação esperada ocorra, por pura coincidência. O homem tem uma ideia bastante clara de como o mundo funciona, de forma que algumas associações lhe parecem plausíveis; outras, por sua vez, absurdas. Ainda assim, muita gente prefere não brincar com a sorte, pois como diz o ditado espanhol, yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay (eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem).