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Existir é preciso

Ainda que tenha um aspecto atraente e sedutor, quando surge perto demais, a loucura exibe sua face misteriosa que foge ao controle – e, por isso mesmo, talvez pareça tão assustadora

agosto de 2015
Gláucia Leal
SHUTTERSTOCK

Todos temos em nós cantos habitados pela loucura. Algumas vezes reconhecemos esses becos psíquicos e isso traz luz às sombras: o acolhimento das pequenas explosões de insanidade aqui e ali nos aproxima da lucidez. Há até certo glamour na possibilidade de ensandecer – seja de alegria, de raiva ou de paixão. No entanto, quando delírios e sensação de persecutoriedade de fato se instalam, caracterizando sob o ponto de vista da psiquiatria uma patologia como a esquizofrenia, por exemplo, o peso da loucura desaba não apenas sobre a pessoa que apresenta os sintomas, mas afeta também aqueles que estão por perto.

Ainda que tenha um aspecto atraente e sedutor, disseminado pela arte e pela literatura, quando surge perto demais, a loucura exibe sua face misteriosa, que foge ao controle – e, por isso mesmo, talvez pareça tão assustadora. Não por acaso, ao longo da história em algumas culturas os delírios foram vistos como sagrados e os delirantes, considerados emissários dos deuses – afinal, mistificar e sacralizar o que não compreendemos conserva a ilusão de que estamos protegidos. Mas quem nos protege de nossos próprios abismos?

Em outros tantos momentos, porém, os doidos foram escondidos, torturados e confinados em sanatórios que antes abrigavam pessoas com hanseníase, como se seu estado fosse contagioso. Ou foram simplesmente banidos. Quem não se lembra, por exemplo, do quadro Nau dos insensatos, pintado no final do século 15 pelo holandês Hieronymus Bosh? A obra retrata uma prática de exclusão comum na Idade Média, em que homens e mulheres, muitos deles em surto, eram colocados em uma embarcação para que vagassem à deriva, longe da “civilização”. A imagem, resgatada por Michel Foucault em História da loucura, pode ser entendida como uma alusão ao desejo de manter a insanidade distante, sob controle. A maneira mais eficiente de fazer isso, no entanto, talvez não seja afastando aquilo que perturba – tanto em nós mesmos quanto no outro.

Nesta edição, especialistas apresentam variados aspectos da esquizofrenia (quadro frequentemente identificado como a forma mais comum de loucura), e dois deles mostram que entre as condutas contemporâneas mais eficientes está justamente a inclusão social. Não é uma abordagem simples, já que apresenta várias facetas, exige engajamento multidisciplinar e comprometimento do paciente e da família. Apesar de complexo, esse olhar leva em conta a possibilidade, já defendida pela psicanálise, de que o delírio guarde sentidos e, na contramão das soluções mágicas, salienta que não basta simplesmente medicar – é preciso oferecer ao paciente a possibilidade de existir como sujeito.

Boa leitura.

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição de Agosto de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1ORuiNB

 

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