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Exposição traz caricaturas da fotógrafa americana Cindy Sherman

O conjunto de obras representa com humor a liberação cultural feminina

agosto de 2012
Christian Ingo Lenz Dunker
© Gonçalo Viana
Acompanhei a exposição da fotógrafa americana Cindy Sherman no Museu de Arte Moderna (MoMa) de São Francisco com aquela agradável sensação de reencontrar um sabor esquecido. Em todas as fases de sua extensa produção, iniciada nos anos 1970, Cindy – hoje com 58 anos – retrata a si mesma. Vemos as mais exóticas variações de sua imagem progredindo segundo um método relativamente simples, baseado no exagero de certos traços que compõem o que poderíamos chamar de um “tipo de mulher”. A caricatura é uma arte e a psicanálise foi uma das primeiras a reconhecer sua importância. A dona de casa esperando seu marido em pose de tensa e sutil autorreprovação. A jovem contorcida no sofá devaneando com um pedaço de jornal rasgado nas mãos: encontros para solteiros. A mulher de meia idade diante do espelho em pose lasciva, que provavelmente jamais se repetirá fora dali. A face refletida em náusea extrema nos óculos deixados entre os restos de uma orgia alimentar. Ou então pedaços de mulher -– vulvas, manequins acopláveis entre peles purulentas dotadas de membros eréteis, talvez de plástico. Gosto particularmente da série que aborda a ucronia (“não tempo”) feminina entre as que um dia vão ser e as que um dia foram.

O conjunto da obra destaca seu traço unário. Não é a paródia, nem a caricatura, nem o sentido altamente crítico que cada um dos semblantes de mulher desperta em nós. Não é o fato de que a imagem se torne imperativo de conformidade durante estes últimos 50 anos de libertação cultural feminina. O segredo de Cindy Sherman é que ela consegue dizer isso com um efeito específico de humor. Para Freud, o humor distingue-se tanto do chiste quanto do cômico. O chiste (Witz, em alemão) é construído no interior de uma pequena comunidade servindo para dizer algo que todos sabemos ou pensamos, mas precisamos do “desvio pelo dito espirituoso” para suspender as regras de interdição vigentes (por exemplo, Chico Anísio em seus momentos solo). No caso do cômico não se trata do pequeno grupo, mas da massa anônima, com a qual nos associamos para extrair um fragmento de satisfação sádica (como Pânico na TV), masoquista (provas de reality shows) ou fetichista (Zorra total). O humor é uma atitude de recuo que pode nos separar do instituído criando o que Lacan chamava de giro discursivo. Ele também nos separa de nossa paróquia particular ao prescindir da confirmação pelo riso do outro para mostrar sua eficácia. No humor o eu ludibria o supereu, sem se fazer de objeto para este, mas divertindo-se com o caráter insensato da lei que ele representa. É o caso do condenado que caminha para o cadafalso, em plena segunda-feira, murmurando para si mesmo: “Que bela maneira de começar a semana”. 

O humor depende de que alguém não se leve demasiadamente a sério em sua própria imagem, mas não recua diante de seu desejo. Ele implica não se deixar intimidar pela compulsão à obediência nos convidando a sermos infiéis ao coletivo de gozo. A depressão é uma patologia do humor não apenas porque causa a perda da capacidade de experimentar gosto, brilho, prazer, felicidade ou intensidade na vida, mas também porque decorre da obstrução do trabalho linguístico, psíquico e social envolvido na produção do humor. Trabalho esse que não se reduz nem à arte de produzir um bom momento espirituoso, nem à facilidade do cômico para reverter a fragilidade de si em perseguição ao outro.  

Olhando o cenário brasileiro, procurando onde estaria nossa Cindy Sherman, só encontrei de um lado a expansão massiva do cômico “abestalhado” e de outro a incorporação de nossos melhores artífices do chiste aos programas de entrevistas. Tive de recuar no tempo até reencontrar a saudosa figura de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que entre vedetes e simplicidades era alguém cuja arte respondia aos critérios freudianos do humor. Em síntese: está com tudo e não está prosa.