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Ferenczi e a psicanálise do contemporâneo

Livro oferece um panorama da obra do analista de "casos difíceis" – que, apesar de suas importantes contribuições, não está entre os mais conhecidos

agosto de 2016
Gláucia Leal

Analista de “casos difíceis”, o húngaro Sándor Ferenczi – que ficou conhecido como enfant terrible – ocupou um lugar ímpar na história da psicanálise: tanto ousou bancar divergências com Freud nos primeiros anos do movimento psicanalítico, quanto apostou na escuta empática e no acolhimento do inominável, dos estados arcaicos que antecedem a palavra, sempre em busca de singularidades. Interessavam a ele principalmente os traumas que insistem em se reapresentar e se materializam nas psicoses, nas compulsões, nos sintomas psicossomáticos e na violência dos atos perversos. Enfim, nos estados-limite que não se enquadram na organização neurótica, tão bem descrita por Freud. Em Ferenczi, 82º volume da coleção Clínica Psicanalítica, Teresa Pinheiro oferece um panorama geral bastante esclarecedor sobre obra do analista – que, apesar de suas importantes contribuições, não está entre os mais conhecidos. 

Embora o próprio Freud tenha escrito ser inconcebível que a história viesse a esquecê-lo um dia, parece ter sido justamente isso que aconteceu por um bom tempo. Não por acaso, ainda hoje, tantos alunos de psicologia chegam ao fim da formação sem ter ouvido falar daquele que foi um dos colaboradores mais comprometidos e criativos da psicanálise, cuja obra tem sido fundamental para a compreensão das dificuldades da dinâmica psíquica e do manejo clínico com os pacientes da clínica da atualidade. 

Uma das virtudes do livro é aproximar o pensamento de Ferenczi e sua prática clínica aos dias de hoje. “Ferenczi foi um teórico da clínica psicanalítica, seus pacientes assim o impuseram. Criou teorias sobre a técnica, criticou a si próprio com veemência, mas não desistiu. Procurou até o fim resolver as questões que os impasses clínicos apontavam”, escreve Teresa Pinheiro, doutora em psicanálise pela Universidade Paris VII e coordenadora do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade (Nepecc) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A autora reconhece que o teórico – nascido a 7 de julho de 1873, na pequena cidade de Miskolc, na Hungria, e morto em 22 de maio de 1933, em Budapeste – pagou um preço alto por sua ousadia. Mas graças a ela foram abertos caminhos importantes a serem percorridos por aqueles que trabalham com a escuta do inconsciente.



Ferenczi – Clínica Psicanalítica
Teresa Pinheiro
Casa do Psicólogo, 2016.
208 págs. R$ 65,00

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de julho de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/29SXuYj  

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