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Ficção, realidade e conceitos de Jung na obra de Roger Ballen

Estudioso da psicologia analítica, o fotógrafo americano registrou imagens enigmáticas na capital da África do Sul

 

junho de 2015
Cabeça dentro da camisa (2001), foto tirada em um prédio antigo habitado por sem-teto em Johannesburgo

O americano Roger Ballen tem uma trajetória acadêmica e profissional fora do comum. Doutor em geologia e bacharel em artes em psicologia na Universidade da Califórnia em Berkeley, mudou-se para a África do Sul nos anos 80 e começou a registrar imagens geológicas no país. Além da natureza, fotografou casas locais e seus moradores, produzindo centenas de imagens que mesclam realidade e ficção e lhe valeram o rótulo de surrealista, em referência ao movimento alinhado com as ideias de Sigmund Freud. Mais de 130 obras do artista estão reunidas em uma retrospectiva no Museu de Arte Contemporânea da USP, em São Paulo.

Estudioso das teorias sobre o inconsciente, Ballen procurou passar ao espectador a perplexidade que sentia diante de cenários e situações cotidianos. O resultado são imagens ao mesmo tempo verossímeis e absurdas, como os sonhos. Os prédios deteriorados e a população miserável da periferia de Johannesburgo ganham ares sobrenaturais na perspectiva de Ballen, que desde a última década tem buscado retratar animais junto às pessoas, inspirado por conceitos da psicologia analítica, fundada por Carl Jung, como o de inconsciente coletivo. De acordo com essa ideia, o psiquismo abriga memórias das gerações anteriores: como se fosse um arquivo que guarda experiências primordiais ou adquiridas ao longo da evolução – tanto da espécie humana como de ancestrais animais. Essas impressões mentais não conscientes se expressam, por exemplo, nos sonhos, nos mitos, na arte.

Apesar do aspecto psicológico e filosófico – Ballen teve grande influência dos pensadores existencialistas, o que se reflete na aura de absurdo e, não raro, de desalento em suas fotografias –, as imagens do artista são conhecidas principalmente pelo forte apelo político, por revelarem ao mundo uma população branca pobre e sem perspectivas na África do Sul.

Roger Ballen: transfigurações, fotografias.
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP).
Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301, Moema, São Paulo.
Terças, das 10h às 21h. De quarta a domingo, das 10h às 18h.
Informações: (11) 2648-0254. Grátis.
Até 27 de setembro.

Esta matéria foi originalmente publicada na edição de junho de Mente e Cérebro 2015, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/1FqeWJ6

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