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04 de maio de 2009
Fronteiras entre a vida e a morte
 
© Andrei Malov/iStockphoto
A partir dos anos 60, o uso crescente de máquinas e inovações tecnológicas de suporte à vida levou a transformações importantes do conceito de morte, tema que é analisado pela psicóloga Luciana Kind, da Universidade Católica de Minas Gerais, em artigo publicado na última edição da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos. A pesquisadora analisou a literatura científica internacional que resultou na definição da morte cerebral e na legitimação de novos procedimentos, como os transplantes de órgãos.

“As práticas médicas que tornaram possíveis os transplantes de órgãos obrigaram a ciência a se justificar”, explica Luciana. “Essas tecnologias reforçaram a construção de uma morte moderna, medicalizada, ligada a aparelhos, produtora de cadáveres funcionais”. Segundo a psicóloga, o uso de aparelhos como o respirador artificial (dispositivo criado na década de 1930 para auxiliar no combate a epidemias de poliomielite nos Estados Unidos e Europa) apresentava dilemas morais decorrentes do prolongamento da vida, que passaram a ser discutidos por médicos, mas também por teólogos, filósofos, antropólogos e juristas.

A autora explica que, após extensos debates, uma comissão americana, formada na década de 1980, elaborou e publicou um documento intitulado Uniform Determination of Death Act - Determinação Uniforme do Ato de Morte (UDDA), no qual a definição passa a vigorar entre duas mortes clinicamente aceitáveis: a parada irreversível das funções respiratórias e circulatórias e a parada irreversível de todas as funções do cérebro inteiro, incluindo o tronco encefálico. “O coração perdeu, nos anos 60, sua condição de órgão privilegiado para definir a morte, mas, em compensação, ganhou o status de órgão nobre para a tecnologia de transplantes”, diz a psicóloga.
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