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Gênero e cultura podem influenciar escolhas no campo de pesquisa acadêmica

Perspectivas masculinas e femininas se diferenciam também na ciência, trazendo resultados diversos a partir de abordagens variadas

 

março de 2015
Douglas Medin
Shutterstock

Produtividade e imparcialidade provavelmente são os aspectos considerados com mais frequência quando se fala de diversidade em ciência. Mas gênero e cultura também precisam ser levados em conta, pois influenciam o que escolhemos estudar, as perspectivas ao abordarmos fenômenos científicos e as estratégias para estudá-los. A biologia evolutiva é um exemplo disso. Apesar das populares imagens de Jane Goodall observando chimpanzés, quase todos os estudos iniciais sobre o comportamento de primatas foram realizados por primatólogos homens que adotaram a opinião de Charles Darwin sobre biologia evolutiva e se concentraram na competição entre machos para obter acesso às fêmeas.

Nessa perspectiva, primatas fêmeas são passivas e o macho vencedor tem acesso a todas elas, ou as fêmeas simplesmente escolhem o mais poderoso.

A noção de que as fêmeas talvez desempenhem papel mais ativo, podendo até acasalar com muitos machos, não recebeu atenção antes que biólogas começassem a fazer observações em campo. Por que elas viram o que os homens não notaram? “Quando, digamos, uma fêmea de lêmure ou bonobo dominava um macho, ou uma fêmea langur deixava seu grupo para encontrar machos estranhos, uma pesquisadora de campo pôde se mostrar mais propensa a segui-la, observá-la e passar a descartar esse comportamento como uma ocorrência casual, ou um golpe de sorte”, escreveu a antropóloga Sarah Hrdy. Seu interesse em estratégias reprodutivas maternas derivou de sua empatia com seus objetos de estudo.

A cultura também fez diferença na abordagem. Nas décadas de 30 e 40, primatólogos americanos adotavam a postura de serem “minimamente invasivos” e tendiam a se concentrar na liderança dos machos e no resultante acesso ao acasalamento, prestando pouca atenção em animais individuais, exceto para traçar hierarquias de dominância; raramente grupos ou indivíduos eram monitorados por muitos anos. Comparativamente, pesquisadores japoneses dedicavam muito mais atenção a status e relações sociais, valores com importância relativa maior na sociedade japonesa.

Essa outra orientação do olhar resultou em diferenças marcantes de percepção. Primatólogos japoneses descobriram que a posição hierárquica dos machos era apenas um fator determinante de relacionamentos sociais e composição grupal. Eles constataram que as fêmeas também tinham uma ordem hierárquica e que o núcleo estável do grupo era formado por linhagens de fêmeas aparentadas – e não por machos. Os estudos mais longos desenvolvidos pelos pesquisadores japoneses ainda permitiram notar que a preservação da posição de macho alfa não dependia unicamente da força física (numa briga, por exemplo).

Diversidade também teve influência em estudos de ciências educacionais e sociais. O trabalho altamente influente de Lawrence Kohlberg sobre os estágios de desenvolvimento moral em crianças, no início da década de 70, foi contestado mais tarde pela psicóloga Carol Gilligan. A perspectiva de mulheres tendia a enfatizar a ética dos cuidados. O modelo de Kohlberg não explicava os princípios morais associados a tradições religiosas orientais, em parte porque seu esquema não incluía princípios de cooperação e não violência.

Ou seja: em ciências, não basta atender aos cânones sobre a necessidade de controles adequados, reprodutibilidade e outras regras correlatas. É preciso tomar decisões sobre que problemas e populações estudar e que procedimentos e medidas usar. Diferentes perspectivas e valores são importantes nessas escolhas. Cientistas sociais predominantemente brancos de classe média, por exemplo, concentram seus programas de pesquisa em populações brancas de classe média, o que pode levar a conclusões não generalizáveis.

Se a participação em práticas culturais é um elemento central de nosso desenvolvimento, então elas influenciarão a maneira como aprendemos e praticamos ciência. Em psicologia, acadêmicos que se concentraram intencionalmente em orientações culturais expandiram conceitos previamente aceitos de desenvolvimento de identidade, motivação e resiliência. Pesquisas sobre o efeito de ensinar crianças a apreciar sua herança étnico-racial ampliaram os limites de concepções aceitas de desenvolvimento de identidade: o trabalho de pesquisadores minoritários tem apontado que estudos tendem a se concentrar nos efeitos de diversidade, em vez de homogeneidade.

A inclusão de cientistas homens e mulheres, de variadas etnias, tem sido importante para reduzir preconceitos e proporcionar diferentes perspectivas. O lugar onde nascemos, por exemplo, pode influenciar o modo como pensamos questões ambientais. Também pode ser a razão por que a opinião prevalente exclui cenários urbanos como parte de ecossistemas e considera ecossistemas ideais aqueles livres da influência humana.

DOUGLAS MEDIN é professor de psicologia, educação e política social da Universidade Northwestern. CAROL D. LEEé educadora especializada em estudos afro-americanos eprofessora de política social da mesma insituição. MEGAN BANG é professora assistente de psicologia educacional da Universidade de Washington

 

Leia mais sobre psicologia da diversidade na edição de fevereiro de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1zYb5B5