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Generosidade pode ser tão prazerosa quanto sexo

Ato de doar estimula as mesmas áreas neurais que se excitam quando se consome um alimento desejado ou se recebe um presente

dezembro de 2016
SHUTTERSTOCK

O que acontece em nosso cérebro quando ajudamos materialmente uma pessoa necessitada ou contribuímos com uma causa social? Estudos mostram que a generosidade pode ser uma fonte de prazer similar a sexo e alimentos saborosos. O pesquisador William Harbaugh, da Universidade de Oregon, professor de economia comportamental e experimental que atua também no Centro Interdepartamental Mente/Cérebro de Rovereto, na Itália, se perguntou que algumas pessoas são levadas a oferecer parte do que têm aos mais necessitados ou às causas beneficentes e quais mecanismos cerebrais entram em ação quando fazemos uma doação. E resolveu pesquisar. “Parti de uma observação comum a muitos pais: as crianças, principalmente quando bem pequenas, são bastante egoístas. Não gostam de ceder parte de seus brinquedos e guloseimas e têm muito mais prazer em receber que em dar. Então, quando e por quê, para alguns indivíduos, isso muda? É óbvio que quem faz uma doação obtém algum benefício com o próprio gesto, caso contrário essa mudança não se explicaria.” 

Harbaugh avaliou o que acontece no cérebro das pessoas que doam parte dos próprios bens e, para isso, propôs uma curiosa experiência, na qual alguns voluntários foram convidados a administrar um fundo de US$ 100. Eles sabiam que podiam doar uma parte à Food Bank, uma associação de caridade conhecida nos Estados Unidos por sua eficiência em ajudar famílias pobres. 

Para evitar que os voluntários fizessem eventual doação levados pelo desejo de serem bem vistos por pesquisadores que conduziam o teste, ou que a doação fosse inibida pelo temor de parecer que estavam em busca de consenso, foi-lhes assegurado absoluto sigilo. Nem mesmo os pesquisadores saberiam na hora quem estava doando dinheiro e quem conservava a quantia consigo. Os participantes podiam enviar a ordem de pagamento com cartão de crédito pela internet, e todos, no final da experiência, receberam o crédito do total na própria conta. Durante toda a vivência, a atividade cerebral dos voluntários foi acompanhada por meio de ressonância magnética funcional, para que fossem especificadas quais áreas se ativam quando resolvemos ser generosos. 

Mas Harbaugh desejava obter mais informações. “Eu queria entender se o gesto de pagar os impostos, um mecanismo indireto de ajuda à coletividade, seria vivido da mesma forma.” Em alguns momentos, durante a experiência, o dinheiro foi sacado sem consentimento da pessoa e enviado automaticamente à entidade beneficente; em outros, a Food Bank recebia a contribuição em nome do voluntário sem, porém, creditar o capital (como um tipo de crédito extra). Dessa maneira foi possível comparar o que acontece na cabeça de quem deve pagar os impostos e na de quem faz uma boa ação de forma involuntária e sem se envolver diretamente.

Quando uma pessoa doa voluntariamente parte dos próprios bens, a ressonância magnética registra a ativação do núcleo accumbens e da ínsula, elementos de uma rede que tem um papel fundamental em todos os mecanismos de recompensa emotiva. O curioso é que nessas situações os voluntários têm tanto prazer quanto aqueles que satisfazem sua vontade de comer doces ou recebem um presente. São as mesmas áreas neurais que se excitam quando se consome um alimento desejado ou se faz sexo. Como ambas são necessidades importantes para a preservação humana, uma vez que garantem a continuidade da espécie, os especialistas levantaram a hipótese de que o altruísmo e a capacidade de compartilhar tenham sido necessários no curso da evolução para garantir a progressiva socialização dos homens. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de dezembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2guA4d3 

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