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Histórias do divã

dezembro de 2007
Divulgação
Contos do Divã (pulsão de morte... e outras histórias), editado pela Ateliê Editorial, com apoio do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, será lançado hoje em São Paulo. Na contramão dos textos técnicos, a autora, a psicanalista Sylvia Loeb, aposta em narrativas enxutas e literárias, para capturar o assombro e os impasses subjetivos que figuram no encontro analítico, em especial nos casos marcados pelo insucesso terapêutico.

A escrita é instrumento fundamental para psicanalistas, uma forma de organizar os fragmentos discursivos que, no cotidiano da clínica, se corporificam nos meandros da transferência analítica. Entre quatro paredes, analista e analisando enfrentam palavras e silêncio, revelações e resistências, tramas do desejo, sofrimento e angústia – manifestações do amálgama de pulsões de vida e de morte que nos caracteriza, cujo entrelaçamento com traços biográficos, socioculturais e biológicos modela para cada sujeito uma história única.

Estão em pauta nos contos de Loeb temas como morte, transexualidade, anorexia e compulsões. Por sua contundência, os casos descritos deflagram no leitor a compaixão pelo sofrimento humano e o desejo de conhecê-lo mais de perto. Com posfácios do presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Luís Carlos Menezes, do psicanalista e escritor Sérgio Telles, e das psicanalistas Silvia Leonor Alonso e Cristina Perdomo. O evento de lançamento de Contos do Divã acontece a partir das 19h na Livraria da Vila (Al. Lorena, 1731), em São Paulo.

Leia a seguir uma das narrativas do livro Contos do Divã:

ACORRENTADOS

Ana recém-formada, pouca experiência,
pensava que sabia das coisas, que podia
transformar o mundo com boa vontade e
muito amor.

João chegou. Moço bonito, forte, bem vestido,
poucas falas.
Pouquíssimas.
Sessões longas, arrastadas, João fazendo
pose, contando violências.

Um dia veio com uma bengala, pequena,
elegante, de dentro dela tirou uma faca.
Outra vez, mostrou correntes que enrolava
nos braços. Briga de rua.

Ana pasma, com medo.
Falar o quê?
Não encontrava palavras, nem pensamento.
João se exibindo, cada vez mais forte,
contente de assustar, valente.

Certa manhã Ana leu no jornal, no necrológio.

João da Silva.

Seria o mesmo?
Nunca mais voltou.