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Igualdade entre gêneros ajudou a desenvolver a cooperação

Estudo aponta que a maior equidade entre homens e mulheres está relacionada à formação de redes comunitárias mais amplas e solidárias

maio de 2015
SHUTTERSTOCK
Não é raro ouvir histórias de gente que se arrisca para salvar alguém em perigo ou move ações para enviar doações e outras ofertas de apoio durante grandes tragédias. Estamos entre os animais mais cooperativos do planeta, embora a ciência não saiba explicar como evoluímos a esse ponto. Um estudo recente da Universidade College London indica que a resposta pode ser a equidade de gênero.

Os antropólogos Mark Dyble e Andrea Migliano questionavam o pensamento tradicional de que estendemos nossas redes sociais convivendo com pessoas geneticamente relacionadas, como avós e primos. A hipótese da dupla era que, se homens e mulheres tivessem o mesmo poder de decisão em relação ao lugar em que gostariam de viver, formariam laços comunitários independentemente do vínculo biológico ou conjugal – e mais solidários.

Para testar a teoria, os cientistas e sua equipe criaram duas versões de um modelo matemático: um em que os dois sexos podiam definir onde a família moraria e outro em que apenas um podia tomar essa decisão. Os cálculos estimaram que a igualdade de gênero poderia favorecer maior diversidade de vida. Numa perspectiva igualitária, a possibilidade de pertencer a um grupo (mesmo pequeno, de 20 pessoas) com indivíduos não relacionados geneticamente seria de 12%, enquanto num sistema em que um dos gêneros tinha maior poder a probabilidade cairia para menos de 1%.

Depois, os antropólogos foram a campo e permaneceram por dois anos investigando 32 sociedades de caçadores-coletores contemporâneas. Eles reuniram informações de 191 adultos, uma parte das Filipinas e outra da África central, e observaram que em ambos os grupos as famílias costumavam se mover entre as faixas que incluem os parentes do marido ou da esposa. Para comparação, os pesquisadores colheram também dados de 49 adultos dos paranan, um povo em que os homens são dominantes e costumam viver com a família do pai.

Os resultados finais combinaram com as previsões do modelo: 16,7% dos agricultores igualitários, em média, não tinham relação genética ou por casamento com o restante do grupo com o qual viviam, contra apenas 4,2% dos caçadores-coletores em que a autoridade era pouco dividida. “Na primeira situação todos ganham”, afirma Dyble. “Nessas condições, maridos e esposas costumavam se aproximar dos parentes quando desejavam. O casal procurava a família da mulher na época de dar à luz, mas tendia a se mover próximo aos parentes do homem depois que os meninos cresciam e podiam ajudar na caça.”

Segundo os cientistas, conviver com pessoas não aparentadas foi essencial na evolução, até mesmo para o desenvolvimento da cooperação. “Só mais tarde, com a ascensão da agricultura e dos sistemas de propriedade e riqueza herdada, a desigualdade de gênero reapareceu. Uma estrutura social igualitária, porém, permite redes comunitárias mais amplas e solidárias, muito além da relação biológica ou de parentesco”, conclui Migliano.

Com informações do site da American Association for the Advancement of Science (AAAS).

  

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