Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

Imagens capturadas do desejo e da fantasia

Psicanalista apresenta cenas delicadas e reduz limites entre sujeito/espectador e objeto/obra

maio de 2008
VIVIAN LEMBO
Personagens aleatórios e silenciosos que se integram ao ambiente
Como num jogo de espelhos, personagens etéreos se fundem a cenários intimistas, dando origem a imagens pictóricas e poéticas, que capturam o espectador e o lançam no terreno insólito e atemporal do inconsciente. Esse é o tom da exposição fotográfica Do outro lado, de Vivian Lembo, psicóloga com especialização em psicanálise, em cartaz na Pinacoteca Luz, em São Paulo.

Muitos são os caminhos do desejo e as formas de expressá-lo. Do ponto de vista do inconsciente, o caminho é tortuoso. Ele só pode se revelar sob disfarce, seja nos sintomas psicossomáticos e sociais, nos sonhos, na contramão das palavras, no riso desavisado que emerge dos chistes ou na surpresa envergonhada que acompanha os atos falhos. Essas expressões do desejo, denominadas formações do inconsciente, relacionam-se às fantasias, as quais aproximam presente e passado em montagens imaginárias sobre a trama do real. A percepção comanda a cena e materializa os sentidos; o olhar ganha corpo – o observador torna-se ao mesmo tempo espectador e autor da cena. E as barreiras entre sujeito e objeto se reduzem.

As imagens de Vivian parecem ir justamente nesta direção: a câmera da fotógrafa esquadrinha o íntimo para trazer à tona seus elementos. Os personagens são aleatórios, importando mais sua presença silenciosa, fragmentária e atemporal (fantasmática), que se funde ao ambiente e se insinua por detrás de janelas, de objetos ou de um abraço.
Segundo a fotógrafa, se a análise visa levar o sujeito a separar-se do objeto, na fotografia se dá o contrário; o resultado de uma imagem depende do modo como ocorreu a fusão momentânea de ambos. “Nem sempre isso ocorre com a intensidade que desejamos, mas, quando acontece, pressinto que consegui captar uma imagem especial.” Não por acaso questões como subjetividade, espelhamento e reflexões do mundo interior constituem a essência das imagens escolhidas para a exposição.