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Incertezas metodológicas

julho de 2007
Agência Fapesp
Para Eduardo Ottoni, da USP, especialista em comportamento de primatas, pesquisa em cognição animal ainda necessita de desenvolvimento metodológico e conceitual. Não temos nenhum consenso sobre a transmissão cultural entre animais, diz
(Agência Fapesp) – Quando macacos-pregos adultos, cercados por outros mais jovens, usam pedras para quebrar coquinhos, trata-se de transmissão de conhecimento? Se os macacos mais habilidosos são os preferidos dos mais jovens, pode-se inferir que eles buscam o melhor aprendizado, ou estão apenas ao lado dos que produzem mais para se alimentar das sobras?

Questões como essas indicam que, embora venha avançando rapidamente nos últimos anos, a pesquisa em cognição animal ainda apresenta lacunas em alguns pontos.

“Acho que as prioridades de pesquisa nessa área são de ordem metodológica e conceitual. Ainda não desenvolvemos um método passível de comprovação e não temos consenso quando falamos em cultura de animais, imitação ou tradições”, disse Eduardo Ottoni, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Ottoni participa do 12º Congresso Brasileiro de Primatologia, em Belo Horizonte, onde apresentou, nesta quarta-feira (25/7), a palestra “Prioridades de pesquisa em cognição de primatas”. O evento é promovido pela Sociedade Brasileira de Primatologia.

Segundo ele, os estudos na área começaram no Brasil pouco depois de 1950, com observação das capacidades cognitivas individuais de animais em cativeiro. Não havia conhecimento das espécies em seu hábitat e as hipóteses sobre as origens sociais da inteligência primata eram procuradas nas raízes da cognição humana.
Com o início das pesquisas de campo, foram adicionados à pesquisa outros elementos, como a complexidade social, as diferenças individuais e o uso de ferramentas, que sugere uma atividade cultural e implica observações sobre os graus de inovação, a capacidade de disseminação, a padronização, a difusão e a naturalidade.

A partir dai surgiu o método de comparação de grupos. “Esse método não deixa à mostra seus mecanismos, mas trabalha com exclusão, por uma série de fatores que não podem ser comprovados. Por isso, é passível de apresentar resultados falsos-positivos e falsos-negativos”, criticou Ottoni.

O pesquisador aponta que a criação de uma metodologia para comprovar evidências de transmissão cultural requer mudanças estruturais. “O laboratório tem que se aproximar dos estudos de campo e o trabalho de campo tem que achar um jeito de se refinar”, disse.

As oportunidades para a aprendizagem social são consensuais, de acordo com Ottoni, em casos como a tolerância social no forrageamento, que otimiza a invenção e a manutenção de técnicas de uso de ferramentas, e em relação às diferenças culturais entre grupos da mesma espécie geograficamente distantes, que sugerem transmissão cultural. “Mas as tradições não estão restritas à cultura material. A aprendizagem, em algum grau, sofre influências sociais e cada população é potencialmente única”, observou.

Para ele, a prioridade para o estudo da cognição de primatas deve ser a reflexão metodológica. “Mas, para começar, temos que lutar pela conservação. É fundamental para o estudo da diversidade das tradições em primatas. Afinal, a fragmentação do hábitat interrompe ou empobrece não apenas o fluxo genético, mas também o fluxo cultural”, destacou.