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Incômoda presença dos “idiotas”

Na adaptação do conto de Horácio Quiroga, doentes mentais são representados por bonecos sem rosto

agosto de 2011
cristiano prim
Na década de 40, um jovem casal orgulha-se do nascimento de seu primeiro filho. Um menino saudável que, pouco depois de completar 1 ano, é acometido por uma forte febre. Ele sobrevive, porém fica com sequela: uma deficiência mental desconhecida. O casal tem mais três bebês, que desenvolvem o mesmo problema. Por fim, nasce uma quinta filha, Bertita, surpreendentemente normal. Essa é a temática de A galinha degolada, montagem com base no conto do escritor uruguaio Horácio Quiroga. Além da questão explícita da deficiência, a história discute assuntos como culpa e dificuldade de lidar com o que nos parece diferente.


Pai e mãe vangloriam-se em segredo da aparente saúde mental de Bertita, considerada a prova de que “seu sangue e amor não são malditos”. Os filhos mais velhos, no entanto, são cuidados pela empregada, que os alimenta e banha de forma negligente. Têm dificuldade para se locomover e comunicam-se por meio de grunhidos. Passam os dias sentados de frente para um muro ladrilhado, apáticos, acompanhando a mudança de cores dos azulejos sob o sol. Na peça, eles são representados por bonecos de pano sem rosto, arrastados pelo palco para que sua visão não incomode os integrantes “normais” da família. Um dia, as crianças assistem à criada matar uma galinha. Ficam fascinadas pelo líquido vermelho que escorre do pescoço do animal e pela festividade dos pais em torno do alimento. Mas logo são enxotadas da cozinha e se acomodam diante do muro, porém o suplício da ave deixa impressões em sua mente. O impulso de repetir a cena resultará em um desfecho trágico.