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Insatisfação precoce

setembro de 2007
Agência Fapesp
Estudo feito por médica do Hospital das Clínicas da UFMG aponta que 62% das crianças e adolescentes não estão felizes com o próprio corpo. O padrão de insatisfação identificado foi semelhante dos 6 anos aos 18 anos
(Agência Fapesp) – Um estudo epidemiológico que analisou 1.183 alunos de 6 a 18 anos, matriculados no ensino fundamental e médio de 20 escolas em Belo Horizonte, apontou que a maioria dos estudantes apresenta insatisfação com o próprio corpo – padrão que não se altera com a idade.

Dos alunos entrevistados, 62,6% estavam insatisfeitos com o próprio corpo, embora mais de 80% do total estivesse dentro do peso normal. Cerca de 34% gostariam de ser mais magros e 29% de ganhar peso. Entre os insatisfeitos, 32% eram homens e 30,6% mulheres.

O trabalho foi realizado por Ana Elisa Ribeiro Fernandes, médica pediatra do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e apresentado como dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG.

Os dados utilizados pela pesquisadora são de estudos conduzidos pelo especialista em cardiologia pediátrica da Fundação Hospitar do Estado de Minas Gerais, Robespierre Queiroz da Costa Ribeiro, coletados por meio de entrevistas em 16 escolas públicas e quatro privadas na capital mineira por uma equipe de alunos de graduação da Faculdade de Medicina da UFMG.
A idade dos alunos foi dividida em quatro grupos: crianças (6 a 9 anos), adolescência precoce (10 a 13 anos), adolescência média (14 a 16 anos) e adolescência tardia (17 a 18 anos).

“O que mais chama a atenção é que não houve diferenças estatísticas significativas de acordo com a idade. O nível de insatisfação corporal foi praticamente o mesmo entre as crianças de 6 anos e os adolescentes de 18 anos”, disse Ana Elisa. “No trabalho, constatei que a preocupação com a imagem corporal não aumentou com a idade dos indivíduos, enquanto outros estudos apontam que os adolescentes são mais insatisfeitos.”

A avaliação da satisfação da imagem corporal dos estudantes foi realizada por meio de uma escala de silhueta, em que foram organizadas figuras de indivíduos em tamanho crescente, partindo de um corpo muito magro até um obeso. Cada estudante deveria indicar a figura mais parecida com seu corpo e aquela com que gostaria de parecer.

Influências familiares

Ana Elisa analisou ainda dados sobre peso, altura, níveis de sedentarismo e hábitos alimentares das crianças e dos adolescentes. De acordo com o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC), 5,2% dos alunos eram desnutridos, 9,9% tinham sobrepeso, 4,9% eram obesos e 80,1% tinham peso normal.
Segundo a pesquisadora, até os primeiros anos da adolescência os pais exercem muita influência na aparência e no estilo de seus filhos, sendo em grande parte responsáveis pela insatisfação corporal na faixa etária mais precoce, aos 6 anos.

“Isso ocorre quando eles monitoram muito a alimentação da criança e as comparam com outros colegas da escola que são mais magros. Outro ponto é quando os pais, principalmente as mães, têm uma preocupação exagerada com o controle de peso e passam esses valores para os filhos”, explica.

O trabalho indica que, como as crianças e os adolescentes também estão expostos às influências da mídia e da cultura social, a convivência com a família e amigos deveria protegê-los da insatisfação corporal.

“Os pais devem promover um ambiente focado na saúde e no bem-estar emocional, não para buscar um resultado visível no corpo, e sim na saúde como um todo”, alertou a pesquisadora.

Segundo Ana Elisa, o desenvolvimento de uma imagem corporal desfavorável está associado a transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia, a baixa auto-estima, a ansiedade, a depressão e o aumento de comportamentos de risco como tabagismo, alcoolismo e abuso de substâncias lícitas e ilícitas.