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Inteligência, aleitamento materno e lipídeos

Estudo mostra influência genética e ambiental no desenvolvimento da capacidade cognitiva do bebê

dezembro de 2007
© VLAD GANSOVSKY/ISTOCKPHOTO
CARGA GENÉTICA pode modular a relação entre amamentação (uma influência ambiental) e quociente de inteligência (QI), inclusive até mesmo na fase adulta
É antigo o debate sobre o papel das influências genéticas e ambientais na inteligência humana. A maioria das pessoas concorda que habilidades cognitivas dependem tanto dos genes que herdamos de nossos ancestrais quanto de estímulos certos aplicados na hora certa. Mas isso ainda é pouco para os cientistas, ávidos por quantificar a contribuição relativa destes fatores e compreender melhor por que somos tão diferentes dos demais primatas.

Estudo publicado no PNAS por pesquisadores do Reino Unido, Estados Unidos e Nova Zelândia mostrou como a genética pode modular a relação entre aleitamento materno (uma influência ambiental) e quociente de inteligência (QI). Há tempos se sabe que crianças amamentadas no peito costumam obter, QI superior ao das que não tiveram a mesma oportunidade. Por trás desta correlação estão alguns lipídeos, que só existem no leite materno humano e com papel fundamental no desenvolvimento do sistema nervoso. O que os cientistas fizeram foi detectar variações de um determinado gene, o FADS2, essencial para o controle das vias metabólicas daqueles lipídeos, e observar como estas crianças, amamentadas ou não, se desenvolviam do ponto de vista cognitivo.

Foram analisadas duas amostras populacionais, uma da Nova Zelândia e outra, do Reino Unido. Do ponto de vista genético, os indivíduos foram divididos em três grupos: sem a variação no gene FADS2 (CC), heterozigoto para esta variação (GC) e homozigoto (GG). As amostras foram balanceadas para eliminar a influência de outros fatores, como nível socioeconômico, idade gestacional, peso no nascimento, entre outros. O QI das crianças foi avaliado aos 7, 9, 11 e 13 anos.

Os resultados confirmaram a relação entre aleitamento materno e QI mais elevado, exceto no grupo GG. Em outras palavras, para quem é homozigoto para a variação do gene FADS2, tanto faz ser amamentado ou não, em termos de QI. Isto sugere que, para nossos ancestrais humanos, dos tempos em que não havia mamadeira, tal perfil genético deve ter influenciado as diferenças individuais de inteligência. Segundo os pesquisadores, estes dados também são úteis para os estudos de genômica comportamental. Além disso, ajudam a esclarecer que muitas questões da biologia não podem ser reduzidas à dicotomia genética-ambiente; a interação entre estes fatores é bem mais complexa do que imaginamos.