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Inteligência e crueldade de um assassino em série

Peça aborda psicopatia como elemento de uma sociedade absurda

julho de 2011
rodrigo meneghello
Robson Catalunha interpreta psicopata italiano: peça reconstrói últimos momentos do personagem
Criminoso mais procurado em quatro países europeus no final da década de 1980, o italiano Roberto Succo foi preso pela primeira vez aos 19 anos, após matar os próprios pais – eles lhe teriam negado as chaves do carro. Formou-se em ciências políticas antes de fugir da prisão psiquiátrica e empreender uma série de assassinatos e estupros. Com base na biografia do assassino italiano, a montagem Roberto Zucco, (com “z” no lugar do “s” do sobrenome original), vencedora do prêmio Shell 2010 de melhor direção, aborda a psicopatia como componente de uma sociedade repleta de absurdos.


Uma das primeiras cenas compreende um diálogo-chave entre o protagonista e sua mãe. Pouco antes de ser friamente estrangulada, ela define o filho como “um trem que descarrila de trilhos dos quais todo mundo pode se desviar”. A metáfora criada pelo autor do texto, o dramaturgo francês Bernard-Marie Koltés, é oportuna – os encontros de Zucco com outros personagens são de fato traumáticas colisões: a rápida relação sexual, empobrecida de sentimento, com uma adolescente é o suficiente para que a moça abandone a família e passe a se prostituir; uma conversa com uma mulher rica e fútil num banco de praça resulta em tragédia.


Apesar de a peça tratar de um assassino em série, a psicopatia fica em segundo plano: é abordada como elemento de uma sociedade de moral distorcida, na qual é preciso “fechar as escolas e aumentar os cemitérios”. O cenário com arquibancadas móveis – os próprios atores arrastam e posicionam as estruturas a cada nova cena – literalmente coloca o público diante de novas perspectivas ao longo do espetáculo. Aos poucos, a agressividade do anti-herói converte-se em perplexidade com o mundo e em desconfortável -consciência de sua “maldade”, até que, perseguido pela polícia, o trem desgovernado corre para a própria destruição.