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As semelhanças entre o jogo patológico e o uso de drogas

Jogadores e usuários de drogas compartilham predisposição genética, mas só recentemente o transtorno foi reconhecido como dependência

março de 2014
Ferris Jabr
Janaka Dharmasena/Shutterstock (baralho), art4all/Shutterstock/Fotomontagem de Marcelo Lima
No passado a comunidade psiquiátrica geralmente considerava o jogo patológico como compulsão, não como dependência motivada pela necessidade de aliviar a ansiedade por meio de uma forma específica de prazer. Na década de 80, a Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla em inglês) classificou oficialmente em seu Manual estatístico e de diagnóstico das doenças mentais (DSM, na sigla em inglês), o jogo patológico como doença impulsiva. A definição, no entanto, era vaga para um grupo de transtornos que, na época, incluíam cleptomania, piromania e a tricotilomania (impulso de arrancar fios de cabelos). Mas, na edição do DSM-5, publicada em maio do ano passado, a associação transferiu o jogo patológico para o capítulo que trata das dependências químicas ou psicológicas. Do ponto de vista da psiquiatria, a decisão reflete um novo conhecimento da biologia relacionada com a dependência e já mudou a maneira como muitos profissionais da saúde trabalham com pessoas que não conseguem parar de jogar. 

O psiquiatra Hermando Tavares, professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) coordenou uma pesquisa com 3.007 pessoas com mais de 14 anos e constatou que 118 delas apresentavam propensão a desenvolver problemas com o jogo. Essas últimas responderam questionários baseados nos critérios do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM). Conclusão: 33% foram considerados jogadores problemáticos e 25%, patológicos. Entre esses, os que tinham menos de 35 anos desenvolveram a dependência mais rapidamente (dois anos) que aqueles a partir de 35 anos (12 anos para o desenvolvimento do transtorno). O estudo foi publicado em janeiro no períodico Psychiatry Research. Pesquisas mostraram que mais de 2 milhões de americanos são dependentes do jogo, e pelo menos 20 milhões têm uma ligação forte com essa atividade, que interfere seriamente no trabalho e na vida social.

Pesquisas recentes mostram que jogadores patológicos e usuários de drogas compartilham muitas das mesmas predisposições genéticas para o comportamento impulsivo e para a busca por recompensas. Da mesma forma que dependentes de substâncias químicas precisam de mais drogas para se sentir bem por algum tempo, jogadores compulsivos se aventuram em riscos cada vez maiores em busca de satisfação. Outra semelhança: tanto dependentes de drogas como jogadores patológicos apresentam sintomas de abstinência quando o objeto de dependência é retirado. E alguns poucos estudos sugerem que há pessoas vulneráveis tanto à dependência de drogas quanto ao jogo patológico porque seus circuitos de recompensa são pouco ativos, o que pode explicar parcialmente por que procuram grandes emoções.


Você acaba de ler um trecho da matéria Jogos e Drogas, da Mente e Cérebro nº 254. Adquira sua revista aqui, na versão digital ou física, e leia essa e muitas outras matérias na íntegra. 

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