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Língua escrita ajuda alunos a aprenderem história

A prática ajuda estudantes a desenvolver consciência histórica e potencializa capacidades de aprendizagem

novembro de 2007
Agência USP
(Agência USP de Notícias) − Lidando com a língua escrita, o estudante toma contato com sua consciência histórica, desenvolvendo-a por meio do diálogo que se estabelece entre o passado, a vivência no presente e o futuro. Essa hipótese foi comprovada no mestrado da professora Maria Aparecida Lima Dias, defendido em agosto na Faculdade de Educação (FE) da USP. “O ensino da história tem fracassado porque desconsidera o que os sujeitos têm a dizer, desconsidera a experiência dos alunos, e tenta substituir tudo isso pelo o que está nos livros”, contesta a pesquisadora.

A escrita é importante porque oferece instrumentos que dão força às idéias destes jovens. Para aprender história, o aluno não depende necessariamente da língua escrita, haja vista como os conhecimentos eram transmitidos nas sociedades antigas. Mas ela potencializa a capacidade de aprendizagem, melhorando a consciência histórica do estudante. Maria propõe que a educação seja encarada sob uma perspectiva genética, a mais avançada de todas as consciências, que vê a sociedade em permanente transformação. Nessa linha de raciocínio, a relação com o mundo é sempre mediada, uma vez que o homem se apropria dos elementos históricos a partir de discursos criados pelo próprio homem. Nela, não existe mais a dicotomia “certo-errado”: sua reflexão é mais abrangente.

A pauta
O trabalho é resultado de uma pesquisa com 134 produções textuais de 67 estudantes de 5ª e 8ª séries de uma escola municipal de São Paulo. Para avaliar o processo de transformação da língua e da consciência histórica dos alunos, a professora pediu que eles produzissem dois textos. Num primeiro momento, ela falou sobre a discriminação racial sofrida por Grafite, ex-jogador do São Paulo Futebol Clube, numa partida contra o time argentino Quilmes, em abril de 2005. Então pediu aos estudantes que contassem se já haviam vivido ou presenciado situação semelhante e propusessem soluções para o problema. No segundo momento, foram desafiados a reescrever o texto depois de um debate. Com isso, Maria ampliou os recursos lingüísticos e históricos dos alunos e fomentou a narrativa.
Os tipos de consciência histórica mais comuns aos textos foram a tradicional, ligada à religiosidade, e a exemplar, sob uma ótica positivista de resgate de heróis do passado. Apenas um aluno, da 8ª série, pensou sob a perspectiva genética. “De maneira simplificada, ele disse que é muito importante falar de Zumbi dos Palmares, mas também é preciso discutir sobre outros negros que fazem a história. Não se trata apenas de descobrir heróis, mas descobrir o homem comum”, conta a professora, a respeito de uma exceção que, para ela, deveria ser regra. Maria defende um ensino sistemático, que explicite ao aluno como usar o conteúdo aprendido em seu cotidiano. “A língua escrita é mediadora, favorece o pensamento e a comunicação”, afirma. “Ao mesmo tempo em que ela opera, melhora o jeito de falar, de escrever e transforma o pensamento, já que consegue materializá-lo. E isso serve para todas as disciplinas”.

Desmotivação
A diferença entre os resultados dos alunos de 5ª e 8ª série surpreenderam a pesquisadora: a motivação e o empenho foram vistos mais no primeiro grupo, sendo que no segundo imperou o desprezo pela atividade. O trabalho começou com 85 estudantes, mas apenas 67 finalizaram os dois processos. Segundo Maria, a não adesão representa uma resistência às práticas escolares que não estabelecem relações de proximidade com os alunos. Como na maior parte do tempo o estudante escreve para ser corrigido, o não produzir é uma atitude de boicote às atividades - vista em maior grau nos mais velhos, submetidos há mais tempo ao ensino tradicional.

“O professor não deve apenas corrigir as vírgulas, mas ensinar os recursos da língua escrita. É preciso trabalhá-la em seu potencial total. Se o estudante não pensa sobre as palavras que escreve, não reflete sobre o que está sendo colocado no papel”, afirma a pesquisadora. Ao privilegiar a idéia, não se está desconsiderando os problemas gramaticais, mas ajudando o aluno a descobrir toda a potencialidade da escrita.

“Existe um absoluto desconhecimento dos professores em relação aos ambientes em que o aluno desenvolve a língua: na prova, na internet, em casa. Cada um deles gera formas diferentes de se escrever e é preciso ensinar onde usar cada uma dessas variantes”, sugere Maria Lima. “A escola tem uma relação com a língua tão castradora que o estudante desenvolve um mecanismo de não querer mais escrever. Com isso, a linguagem abreviada da internet representa uma solução fácil ao problema”, finaliza.