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Livro retrata a experiência de crianças hospitalizadas

julho de 2009
Divulgação
Sensibilizar os profissionais de saúde que tratam de crianças doentes. Essa é a intenção de O Hospital pelo olhar da criança, organizado pelas terapeutas ocupacionais do Instituto da Criança (Icri) do Hospital das Clínicas da USP, Aide Mitie Kudo e Priscila Bagio Maria. O livro é composto de frases ditas por pacientes do Icri, entre 3 e 18 anos e de fotos tiradas por elas em oficinas do instituto, entre 2005 e 2008. A ideia era que as crianças passassem suas impressões, medos e sentimentos sem que isso fosse narrado por um profissional. Aide, coordenadora da terapia ocupacional, conta que o objetivo é “mostrar o olhar das crianças. Ele traz a hospitalização infantil pelo olhar delas próprias e não pelo nosso, de profissionais”.

A terapeuta conta que pensava há muito tempo em fazer um livro de sensibilização de profissionais de saúde infantil, mas não tinha achado a saída até ouvir uma frase curiosa de um paciente. Max, de três anos, ao ver os potes de exame do hospital pediu um deles “Você me dá um desses potinhos?”. A enfermeira respondeu: “Mas para quê você quer esses potinhos”. O menino devolveu: “Eu coleciono”. A enfermeira, então, perguntou. “Desde quando você coleciona?”, e Max a desconcertou dizendo “Desde agora”. Segundo Aide, ao ouvir essa frase ela percebeu que o material para o livro estava bem em frente dela.
Durante três anos os profissionais do Icri abriram os ouvidos ao que as crianças diziam. Aide considera que esta seja uma forma inovadora de fazer um livro sobre a relação das crianças com o hospital. “Normalmente temos obras que relatam as experiências infantis, mas são feitos por meio de entrevistas. A criança para um momento e responde às perguntas. No nosso livro não. Notávamos as frases ditas por elas”. “Por serem ouvidas em momentos de espontaneidade, as frases muitas vezes retratam visões que uma entrevista dificilmente conseguiria”, diz Aide. Em sua maior parte, foram ditas nos momentos em que as crianças brincavam nas áreas de lazer, raramente durante uma consulta ou quando estavam em seus quartos de internação. A terapeuta acredita que isso permitiu que fossem manifestados sentimentos e emoções que ajudam a compreender melhor como as crianças vêem o hospital: “Só porque está internada, ela não deixa de ser criança, ela continua sendo mesmo naquela situação”.

Durante o processo de coleta de frases, os profissionais conseguiram algumas definições sobre eles próprios. O médico foi definido como o “salva-vidas”, os enfermeiros como “as pessoas que sabem tanto quanto os médicos, mas de um jeito diferente”. Um capítulo do livro se dedica exclusivamente às amizades que as crianças fazem durante a internação. Aide afirma que “como as crianças que nós tratamos têm doenças crônicas, elas acabam se conhecendo, pois passam por períodos longos de internação e tratamentos constantes”.

Laleska, de 10 anos, ao saber que a amiga iria para UTI disse o seguinte: “A Tainá é minha amiga há seis anos. Hoje, ela está na UTI porque fez transplante. Vou cuidar da boneca da Tainá enquanto ela se recupera”. Aide considera que, por estarem internadas ou doentes, as crianças às vezes são tratadas como adultas, ou outras partes de suas vidas são deixadas de lado “como se houvesse somente a doença”. Aline de 15 anos contraria isso: “Há duas coisas que eu preciso pra viver: lápis para olhos e insulina; primeiro o lápis... depois a insulina”. Segundo a coordenadora, o objetivo é que o profissional da saúde de qualquer área, não somente da terapia ocupacional, veja que a criança é capaz de entender o que acontece, que ele deve olhar para ela de forma humanizada. (Da Agência USP de Notícias)