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Lixo na cabeça

Ricos ou pobres, a maioria acredita que os detritos que produzem é problema alheio

abril de 2016
Sidarta Ribeiro
SHUTTERSTOCK

Quando recebi convocação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para comparecer a uma reunião de especialistas em Brasília, a respeito da epidemia de vírus Zika e sua provável relação com o aumento vertiginoso dos casos de microcefalia no país, não tinha ideia da gravidade da situação. Em 2015 foram 3.174 casos em recém-nascidos de 21 unidades da Federação, ante 147 casos em 2014. O vírus Zika é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, presente em todo o território nacional. Embora ainda não esteja definitivamente estabelecida a relação de causalidade entre o vírus Zika e diversas malformações que incluem a microcefalia, a correlação é muito alta e preocupante.

A boa notícia é que foi posta em movimento uma ampla força-tarefa para tentar entender e debelar a epidemia, incluindo clínicos, virologistas, entomologistas, imunologistas, epidemiologistas, geneticistas, radiologistas e neurocientistas. A má notícia é que sabemos muito pouco sobre o vírus Zika, que chegou ao Brasil em 2014 durante a Copa do Mundo. Além das malformações fetais, o vírus Zika parece estar associado à síndrome de Guillain-Barré, uma doença desmielinizante que afeta pessoas de qualquer idade e pode levar à morte por insuficiência respiratória caso não seja tratada rapidamente, por limpeza do plasma sanguíneo ou injeção de imunoglobulinas. A péssima notícia é que ambos os tratamentos são bastante caros, da ordem de R$ 20 mil por paciente.

Trata-se possivelmente da pior crise de saúde pública desde os tempos de Oswaldo Cruz. Corremos o risco de terminar o verão não com 3 mil microcéfalos, mas quiçá 30 mil... neste momento ninguém pode prever. Microcéfalos exigem cuidados intensivos por toda a vida, pois usualmente não têm autonomia nem mesmo para alimentação e higiene pessoal. É uma bomba-relógio com potencial para explodir nosso combalido Sistema Único de Saúde e comprometer uma geração inteira.

Como chegamos a esse ponto, se há mais de 100 anos se combatem os mosquitos vetores da febre amarela, dengue e febre chicungunha? Parte da resposta estava estampada em dezembro em todas as paradas de ônibus de Brasília: os alertas do Ministério da Saúde foram colocados invariavelmente na face de trás dos anúncios, quase invisíveis para os transeuntes, que na face da frente eram informados sobre a mui relevante estreia de Alvin e os Esquilos nos cinemas da capital... Mesmo diante da tragédia iminente, em nosso país o lucro privado sempre vence o bem público.

O resto da resposta é nossa aparente incapacidade de lidar responsavelmente com o lixo. Ricos ou pobres, a maioria d@s brasileir@s acredita que seu lixo é problema alheio. O descarte acontece em qualquer lugar, sem nenhuma preocupação com os reservatórios de água que permitem a proliferação dos mosquitos.

Para alertar contra essa catástrofe, o Instituto do Cérebro e o Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte promoveram em janeiro o evento “NeuroSudário: combater o mosquito para proteger uma geração”, com o registro neurofisiológico da criação do artista plástico carioca Sergio Cezar, que trabalha há 35 anos com a reciclagem artística de materiais descartados. Em sua técnica “Sudário”, Sergio usa o relevo da cabeça ou de todo o corpo como suporte para o surgimento de uma imagem que, em suas palavras, representa “a alma humana da maneira mais nua possível”.

Ao som de atabaques, a mensagem de Sergio ecoou profundamente: precisamos da humildade de nos curvarmos diante do lixo para reciclá-lo. Se não fizermos isso, os “Sudários” das cabeças do futuro serão tão atrofiados quanto nossa inteligência coletiva.

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