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Lógicas cerebrais podem pesar na balança

Muitas vezes criamos raciocínios para justificar a ingestão de alimentos calóricos 

 

abril de 2015
Steve Mirsky
SHUTTERSTOCK

A literatura iídiche apresenta várias histórias sobre o vilarejo mítico de Chelm, cheio de pessoas que, digamos assim, provavelmente não seriam as mais brilhantes de sua turma de Yeshivá (instituição judaica para o estudo da Torá). Um desses contos narra o caso de confusos carpinteiros que, por mais que cortassem as extremidades de uma tábua, não faziam ideia do porquê de a madeira estar sempre curta. Vejam só!  Recentemente, uma pesquisa demonstrou que, quando se trata de alimentação, a maioria das pessoas é cidadã honorária de Chelm. O doutor em psicologia e administração de empresas Alexander Chemev, por exemplo, descobriu que muitos acreditam na possibilidade de reduzir o valor calórico de uma refeição por meio de um método simples: acrescentando mais comida. Dito assim parece absurdo, mas essa forma de pensar segue uma espécie de “lógica própria”.

Em artigo publicado na Journal of Consumer Psychology, o pesquisador da Escola Kellog de Administração da Universidade Northwestern, em Ilinois, explica que as pessoas agem como se os alimentos saudáveis tivessem “halos” ou “auras” – sua salubridade se expandiria para o resto dos ingredientes. Vegetais e frutas teriam halos grandes; guloseimas em geral, halos nulos.

É nesse momento que o cérebro aplica cálculos insanos à comida. Os comilões julgam que a salubridade de um alimento está relacionada ao seu potencial de engordar. “Como consideram os alimentos saudáveis menos relacionados ao ganho de peso”, escreve Chemev, “as pessoas tendem a assumir erroneamente que, ao acrescentarem um item saudável à refeição, diminui-se a possibilidade de ganhar peso.” Por exemplo: se a pessoa opta por um enorme sanduíche, acompanhado de refrigerante e fritas, “para compensar” inclui tomate e alface no lanche.

Em um experimento, o pesquisador pediu a mais de 900 pessoas que verificassem quatro preparações diferentes e estimassem seu conteúdo calórico. Esses pratos eram: um hambúrguer; um sanduíche de bacon e queijo, feito com massa de waffle; chili com carne; e um sanduíche de queijo, almôndega e pepperoni. A metade dos participantes também foi mostrada uma guarnição saudável, como três talos de aipo. Os voluntários que tiveram contato somente com a preparação principal estimaram uma média de 691 calorias. Os que foram apresentados ao mesmo prato, mas servido com os inúteis talos de aipo ou outros acompanhamentos saudáveis, avaliaram a refeição completa em apenas 648 calorias – 43 calorias a menos. Para uma pessoa muito imaginativa, isso poderia ser pretexto para adicionar, digamos, um cookie ao final de uma refeição com hambúrguer e aipo, só para que a contagem calórica voltasse a ser apenas a do sanduíche.

Essa espécie de “raciocínio engordativo” foi comprovada por um estudo conduzido pelo psicólogo Brian Wansink, pesquisador da Universidade Cornell. O especialista em comportamento alimentar descobriu que os frequentadores de restaurantes supostamente saudáveis estimavam a contagem calórica da refeição em 56% de seu valor real. As pessoas que cometiam esse equívoco ainda o aumentavam ao achar que sua refeição, teoricamente de baixa caloria, as liberava para comer algo pouco nutritivo, como batatas fritas ou doces – uma lógica que pode pesar na balança. Ou seja: em termos de ingestão calórica e mesmo de saúde, por si só a promoção do consumo de alimentos saudáveis pode ser ineficaz. Talvez seja mais eficaz entender como criamos truques para nos convencer a comer o que queremos.

 

Leia o texto completo do especial: "Alimentação sob outro olhar", da edição de abril de 2015 de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento:http://bit.ly/1FHaxa8

 

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