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Mais vale um doce na mão...

Adiar o prazer da recompensa imediata para tentar obter uma maior no futuro nem sempre é a escolha mais racional 

abril de 2013
Yasonya/Shutterstock
Conversando calmamente com uma criança de 4 anos, o pesquisador coloca na mesa diante dela um suculento marshmallow e avisa que sairá da sala para buscar outro doce e que voltará dentro de instantes. Ele a alerta que, se esperar para comer, poderá ganhar duas guloseimas em vez de apenas uma; caso contrário, se não conseguir resistir, não ganha outra. Ele desaparece por 15 minutos e depois retorna. Esse experimento é feito com dezenas de crianças e, mais de uma década depois, os pesquisadores analisam o desempenho escolar de cada uma delas, já adolescentes, e concluem: aquelas que resistiram diante do doce por mais tempo tinham melhor desempenho escolar e eram mais sociáveis e emocionalmente estáveis. Conhecido como “estudo do marshmallow”, esse clássico experimento dos anos 70 foi considerado, por décadas, como uma espécie de predição da capacidade inata de autocontrole que uma pessoa terá ao longo da vida. Um novo estudo publicado em Cognition, no entanto, mostra que essa conclusão é bastante superficial, pois não considera a influência do ambiente social sobre a decisão dos pequenos de esperar para comer dois doces em vez de um.

A cientista cognitiva Celeste Kidd, da Universidade de Rochester, em Nova York, deu a crianças de 4 anos papel e lápis de colorir desgastados e de péssima qualidade e disse-lhes que, se esperassem um pouco para começar a desenhar, traria um material muito melhor. No entanto, ela trouxe os recursos prometidos apenas para metade delas. Para as outras – que estavam em uma sala separada –, a pesquisadora disse que não havia encontrado nada melhor e que elas teriam de brincar apenas com o que tinham. Em seguida, Celeste fez o teste do marshmallow com todas elas. Resultado: as crianças que receberam o material prometido esperaram em média 12 minutos para comer o doce; as que foram frustradas, 3 minutos.

“Adiar recompensas é uma escolha racional apenas se você acredita que receberá um segundo marshmallow. Crianças que sabem o que é privação sabem que é melhor comer um doce do que – sabe-se lá o que pode acontecer? – ficar sem nenhum”, diz a cientista, que teve a ideia de refazer o experimento depois de trabalhar como cuidadora de crianças de famílias desabrigadas em Santa Ana, na Califórnia. Segundo ela, a capacidade de resistir a tentações é determinada por um conjunto de fatores, como condição socioeconômica e ambiente familiar.

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