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Medicamento para diabetes combate Alzheimer?

A metformina, um remédio seguro e barato, pode desacelerar ou reverter a demência e o comprometimento cognitivo, mesmo em não diabéticos

maio de 2017
Meredith Knight
SHUTTERSTOCK

A maior parte das pessoas diagnosticadas com diabetes tipo 2 em vários países, incluindo Estados Unidos e Brasil, toma o medicamento metformina (vendido com vários nomes) para ajudar a controlar a glucose no sangue. A droga, usada por milhões de pacientes, é considerada bastante segura e apresenta poucos efeitos colaterais além do desconforto gastrointestinal que provoca em parte dos usuários. Outra vantagem é que seu custo é acessível. A novidade agora é que, segundo novos estudos, há indícios de que a metformina possa ajudar a proteger o cérebro de desenvolver doenças do envelhecimento, mesmo em não diabéticos. 

Pesquisadores já sabem que o diabetes é considerado um fator para o surgimento de doenças neurodegenerativas. Porém, o uso de metformina está associado a uma redução radical na incidência dessas patologias. No estudo mais abrangente até agora sobre os efeitos da metformina, a cientista Qian Shi e suas colegas da Universidade Tulane acompanharam 6 mil veteranos diabéticos e demostraram que, quanto mais tempo um paciente utilizava metformina, menores eram as chances de desenvolver as doenças de Alzheimer e Parkinson e outros tipos de demência e comprometimento cognitivo. As descobertas apresentadas na reunião das Sessões Científicas da Associação Americana de Diabetes, nos Estados Unidos, mostram que, assim como já tinham revelado alguns trabalhos anteriores menores sobre uso de metformina a longo prazo, no novo estudo pacientes que utilizavam a droga por mais de quatro anos apresentavam um quarto da incidência da doença em comparação com pacientes que só faziam uso de insulina ou a insulina associada a alguma outra medicação, trazendo o nível de risco de diabetes para um nível correspondente àquele da população geral. 

“Mesmo na ausência de diabetes, os pacientes com Alzheimer costumam apresentar sensibilidade à insulina reduzida no cérebro”, diz a neurocientista Suzanne Craft, que estuda resistência à insulina em doenças degenerativas na Faculdade de Medicina Wake Forest. A substância desempenha muitos papéis neurológicos, está envolvida na formação da memória e ajuda a manter as sinapses livres de acúmulo de proteína, incluindo os emaranhados de tau e placas amiloides que se acumulam na doença de Alzheimer, diz Craft. Essa associação levou algumas pessoas a chamar Alzheimer de “diabetes tipo 3”.

A esperança de pesquisadores é que a metformina possa ajudar a corrigir os problemas ligados à insulina no cérebro em processo de envelhecimento. Pesquisas em animais mostram que o efeito da droga nas células-tronco neurais pode ser a chave para novas descobertas nessa área. Os neurocientistas Jing Wang e Freda Miller, ambos então no Hospital de Toronto para Crianças, mostraram que, quando se administra metformina a ratos não diabéticos, sua memória melhora devido a um aumento na população de células-tronco neurais e maior número delas que se desenvolvem de forma saudável no hipocampo, o centro da memória no cérebro. 

Estudos clínicos humanos também acenam com promessas no tratamento de Alzheimer na fase inicial da patologia. O neurologista Steven E. Arnold, do Hospital Geral Massachusetts, demonstrou recentemente que pacientes diagnosticados com a doença apresentavam melhoras pequenas, mas significativas – na capacidade mnêmica e no funcionamento cognitivo – após ingerir metformina por oito semanas, em comparação àqueles que tomavam placebo. O imageamento do cérebro revelou também algumas melhoras no metabolismo neural. Os efeitos modestos são a norma quando se trata de Alzheimer: mesmo as drogas já aprovadas e utilizadas apresentam somente uma pequena eficácia e por um período limitado. “Essa é uma das grandes motivações para encontrar novas terapias”, diz Craft. 

Arnold pretende conduzir um estudo maior que possa avaliar melhor a eficácia da metformina, mas financiamentos têm sido um problema. É que, como a medicação é genérica, as indústrias farmacêuticas têm pouca motivação em termos de lucro para testá-la. “Trata-se de um medicamento simples, comum e barato que pode afetar um aspecto importante do comprometimento cognitivo em adultos idosos, e há uma razão científica convincente para examiná-la. Agora só precisamos realmente estudá-la de modo que nos forneça uma resposta clara quanto à sua verdadeira utilidade”, diz Arnold. Ele acredita que, se houvesse interesse financiamento, um estudo definitivo poderia ser concluído em dois anos. 

Os grupos de pesquisa de Craft e Arnold trabalham atualmente para encontrar também biomarcadores de Alzheimer, sinais biológicos mensuráveis da patologia, para que pacientes com alto risco de desenvolver doenças degenerativas possam ser identificados precocemente – e tratados. Essas pessoas poderiam ser potenciais candidatos ao uso da metformina e outros sensibilizadores de insulina para impedir seu aparecimento.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de maio de Mente e Cérebro, disponível em: 

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