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Medicamentos nem sempre eficazes

Fármacos não apresentam eficiência na prevenção do transtorno de estresse pós-traumático

março de 2013
Brian Goodman/Shutterstock
Nikolas Westerhoff e Ulrich Frommberger



Há muito tempo psiquiatras tentam suavizar as consequências agudas de um trauma com medicamentos. Receitam, por exemplo, antidepressivos. Alguns médicos adotam também, calmantes muitas vezes eficientes para combater distúrbios de sono, ataques de angústia e, em determinados casos, riscos de suicídio. Assim, é bastante possível atenuar as consequências psíquicas agudas de um trauma. No entanto, não são adequados para tratar o transtorno de estresse prós-traumático (TEPT). A longo prazo, benzodiazepinas chegam mesmo a elevar os índices de TEPT e de depressão, como já comprovou em 1996 um grupo coordenado pelo psiquiatra israelense Arieh Shalev, do Hospital Universitário Hadassah, em Jerusalém.

A Cochrane Collaboration, uma rede internacional de médicos e cientistas, chegou à conclusão, exposta em um relatório publicado há alguns anos, que segundo os conhecimentos científicos atuais não existe nenhum medicamento que possa evitar o desenvolvimento de TEPT. Pesquisadores do mundo todo testam novas substâncias. Em uma intervenção aguda, betabloqueadores poderiam ajudar, como aqueles que os médicos receitam contra pressão alta e taquicardia. Se, de seis a doze horas depois de um trauma, administramos o betabloqueador propanolol por aproximadamente uma semana, esse procedimento suprime, em algumas pessoas, reações de angústia a longo prazo, como descobriu o psiquiatra Roger Pitman, da Universidade Harvard.

Em um de seus experimentos, o médico confrontou 41 pacientes com a gravação de suas próprias descrições de seus traumas e concluiu que alguns pacientes tratados com propanolol reagiram de forma menos emocional aos seus relatos do medo do que o grupo que utilizou placebo. Um experimento coordenado pela psicóloga Merel Kindt, pesquisadora da Universidade de Amsterdã, aponta para uma direção semelhante. Com a ajuda de eletrochoques, eles condicionaram os sujeitos de seu experimento de forma que eles passaram a sentir medo ao ver fotos de aranhas. Os sujeitos que receberam uma dose única de propanolol no dia seguinte estavam claramente menos amedrontados 24 horas depois do que aquelesque tomaram placebo.

No entanto, o psiquiatra Roger Pitman alerta para a importância de considerar que, antes de utilizar o betabloqueador em grupos de pessoas com risco de trauma – policiais, soldados, pessoas que auxiliaram em acidentes e bombeiros, por exemplo –, os efeitos ainda precisam ser estudados com mais profundidade, e a psicoterapia ainda é a primeira indicação. Atualmente, faltam, por exemplo, outras provas convincentes de que betabloqueadores possibilitem uma intervenção aguda efetiva.

Segundo o mais novo relatório Cochrane, em casos extremos, que não respondem bem à terapia, os inibidores seletivos de recaptação da serotonina (SSRI) podem ajudar a aliviar sintomas. Eles são utilizados mais frequentemente como antidepressivos, mas reduzem também os pesadelos em pessoas traumatizadas e suavizam o impacto de lembranças indesejáveis. Os pacientes tratados com eles, por exemplo, podem voltar a se expor a objetos e locais associados ao trauma – em vez de apenas evitá-los.

O efeito desses medicamentos é um indício de que a substância mensageira serotonina desempenha importante papel na reação a traumas. Áreas cerebrais que utilizam esse neurotransmissor controlam, entre outras coisas, o processamento de emoções – por exemplo, a amígdala, que funciona como uma “central de alarme e medo” do cérebro. Hoje em dia, os pesquisadores associam inúmeros sintomas psíquicos, como distúrbios do sono, pensamentos compulsivos ou ataques de pânico, com o sistema de serotonina. 

Uma pesquisa feita pelo psiquiatra Steven Southwick, da Universidade Yale, em New Haven, Connecticut, indica que pessoas com maior risco de desenvolver TEPT sofrem de falta de serotonina. Para elas seria difícil, por exemplo, interpretar os sentimentos corretamente. No entanto, mais uma vez há controvérsias, já que vários neurobiólogos consideram que outras substâncias mensageiras, como a dopamina ou o glutamato, podem concorrer para o surgimento do transtorno. 

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