Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

Memórias da filha de Jacques Lacan

Adaptação do livro Um pai, de Sibylle Lacan, monólogo reconstrói a conflituosa relação da escritora com o psicanalista francês

março de 2015
Marcelo Correa

Sibylle Lacan (1940-2013) sempre conviveu com a ausência do pai, o psicanalista Jacques Lacan (1901-1981). Quando nasceu, ele já havia abandonado sua mãe e se casado com outra mulher, com quem teve uma filha poucos meses mais nova que Sybille: a filósofa Judith Miller, que participou de seu círculo intelectual e a quem ele deixou em testamento todos os direitos sobre sua obra. À caçula do primeiro casamento Lacan não dedicou mais que alguns encontros esporádicos durante a infância e adolescência da jovem, que imaginou por boa parte do tempo que ele vivia ocupado com viagens. “Quando eu nasci, meu pai não estava mais conosco. Até poderia dizer que, quando fui concebida, ele já estava em outro lugar (...). Sou o fruto do desespero. Alguns dirão que é do desejo, mas não creio nisso”, revela no livro de memórias Um pai: puzzle (Bertrand Brasil, 1996). Escrito em uma única noite no começo dos anos 90, o texto de estrutura fragmentada é, como diz o título, um quebra-cabeça que reúne as lembranças do homem a quem amou, mas mal conheceu.

O doloroso relato de Sibylle ganha agora adaptação homônima para o teatro, com a atriz Ana Beatriz Nogueira na pele da filha de Lacan e direção de Vera Holtz e Guilherme Leme. “Ela não queria que inventássemos coisas para o texto. Podíamos cortar, mas não acrescentar informações”, conta Ana Beatriz sobre o processo de transformação do livro em monólogo, que começou pouco antes da morte de Sibylle, há dois anos, por overdose de medicamentos. No palco, Ana Beatriz revive momentos da vida da escritora, como a conflituosa relação com Judith, a preferida do pai, de cuja existência Sybille soube quando já era quase adulta. “Meu primeiro encontro com Judith me arrasou. Ela era tão amável, tão perfeita, e eu tão desajeitada, tão inábil. Ela era a sociabilidade, a descontração; eu, a camponesa do Danúbio”, relembra em Um pai, fazendo referência ao grosseiro personagem de uma fábula de La Fontaine.

A “apropriação postmortem de Lacan”, usando palavras de Sibylle, talvez seja sua grande mágoa em relação à meia-irmã. Judith teria providenciado o enterro sem consultar os irmãos, contando com a ajuda do marido, o psicanalista Jacques Miller, a quem Lacan autorizou a livre edição dos Seminários. Ao explorar uma faceta menos conhecida do homem Lacan, e da perspectiva de uma filha, Um pai contém interessantes elementos para os interessados na biografia do psicanalista.


Um pai (Puzzle). Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro. Sextas, sábados e domingos, às 19h30. Informações: (21) 3808-2020. R$ 10. Até 3 de maio.