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Mistérios do clímax feminino

Estímulos são diferentes para homens e mulheres; para elas, o tato, a atenção, a palavra e o ouvir são prioridade, diz especialista

março de 2010
Evelyn Strauss
Sleeping baigneuse, 1897, óleo sobre tela de pierre-auguste renoir/slg.oskar Reinhart, Winterthur
Cientistas de várias especialidades se ocuparam deste assunto desde sempre, a começar, é claro, pelo velho e genial Sigmund Freud, que sobre mulheres e gozo, especificamente, chegou a esta conclusão: o orgasmo clitoridiano seria precário, uma fixação na sexualidade infantil, enquanto o orgasmo vaginal estaria associado à genitalidade e maturidade psíquica da mulher. É verdade que deixou em aberto sua angústia sobre o sexo feminino, seus gozos e frustrações ou mistérios, tanto que fez a famosa pergunta: Afinal, o que querem as mulheres? As feministas não se cansam de lembrar dessa passagem de Freud. Algumas a levam tão a sério que escrevem livros tentando responder a essa questão, como a americana Erica Jong, que publicou O que querem as mulheres, na década de 90, quando estava beirando os 50 anos. A autora fez história com o célebre Medo de voar (Editora Record), sobre a liberação feminina nos anos 60.

Enquanto Freud se concentrava nos estudos do orgasmo, pesando os méritos do gozo clitoridiano versus o vaginal, quantas desconhecidas não estariam chegando ao clímax, com mais ou menos fantasias? Simplesmente porque a fisiologia feminina e o cérebro, o centro do orgasmo de ambos os gêneros, funciona de forma muito particular.
A mulher e seu corpo, há muito contraditam versões estereotipadas sobre a sexualidade e desmentem as regras ditadas por teóricos e experimentalistas sobre o assunto. Mas, finalmente, nas duas últimas décadas, pesquisadores têm confirmado que a estimulação sexual feminina pode ter caminhos diferentes. E, com ou sem parceiro, pode incrementar sua vida sexual permitindo que as sensações de seu corpo a guiem em direção a esses caminhos que trazem o prazer e, finalmente, o orgasmo.

No estudo que foi um divisor de águas na década de 60, os pesquisadores da sexualidade, Masters e Johnson, estabeleceram algumas características da reação fisiológica feminina à atividade sexual. Eles descobriram que, durante a excitação, a respiração, a pressão sangüínea e a freqüência cardíaca aumentam. O sangue flui para a vulva e o útero sobe à medida que a parte superior do balão vazio, que é a vagina, se abre. No orgasmo, toda a região pélvica se contrai, involuntariamente. Segundo os estudiosos, o clitóris, um pequeno órgão erétil próximo à parte frontal da vulva, desempenha papel central na excitação.
Na virada da década de 80 para a de 90, os cientistas identificaram outras rotas para o orgasmo, como o ponto G, uma região de sensibilidade extrema, localizada na parede frontal da vagina, a poucos centímetros da entrada. Estimular essa região poderia gerar grande excitação e até mesmo o orgasmo. Algumas mulheres ainda liberam fluido da uretra, quando estimuladas na área vaginal. Muitas sentem intenso prazer com isso, observa a sexóloga Beverly Whipple, da Universidade Rutgers. “Existem mulheres que sentiam haver algo errado com elas e se submeteram à cirurgia para impedir a expulsão do líquido. Mas essas são variações normais. O problema é que, historicamente, fomos levadas a acreditar que existia apenas uma maneira de reagir sexualmente”, afirma.
Existem outras vias no corpo feminino que levam ao orgasmo. A estimulação próxima da região vaginal oferece prazer intenso a muitas delas, e até orgasmo. Outras podem chegar ao clímax com o estímulo de partes do corpo distantes dos genitais. O bico dos seios é um desses pontos-chave, sem dúvida, a região do pescoço e a nuca também podem ser pontos de sensibilidade diferenciado, dependendo da mulher. “Existem bibliotecas cheias de material sobre o clitóris, a vagina e o ponto G, mas outras partes do nosso corpo também estão repletas de potencial erótico”, lembra a terapeuta sexual, Gina Ogden, de Cambridge, Massachusetts. “Eu não quero propor, com isso, que as mulheres que não sentem orgasmo saiam em uma excursão pelo corpo, tentando achá-lo, mas é importante saber quais são as possibilidades.”

Ogden, Whipple e o neurocientista comportamental Barry R. Komisaruk, da Rutgers, mediram mudanças fisiológicas, tais como pressão sangüínea, freqüência cardíaca e diâmetro da pupila em sete mulheres que podiam ter orgasmos com auto-estimulação genital ou apenas com alguma fantasia. Mais da metade das examinadas conseguiam alcançar por toque extragenital, mas elas são, provavelmente, raras. Ogden descobriu que algumas podiam atingi-lo sem se tocar. Os pesquisadores concluíram que ao se excitar, mesmo que com ajuda apenas do pensamento, é possível experimentar no corpo uma sensação de intenso prazer, similar à que se sentiria tocando os genitais. Estudos com a finalidade de aperfeiçoar a qualidade de vida de mulheres com traumatismo na medula espinhal sugeriram que a diversidade de orgasmos está associada também à neurobiologia básica. Mulheres com essas lesões, que em princípio apresentariam comprometimento na transmissão das mensagens dos genitais à medula, podem experimentar orgasmos com estimulação das regiões cervical, vaginal ou clitoridiana. Esses achados apontam a existência de caminhos neurológicos adicionais que levam ao orgasmo.
SEM ORGASMO
Embora se observe essa variedade de caminhos e métodos pelos quais as mulheres podem atingir o orgasmo, muitas de fato nunca experimentaram um, enquanto outras não chegam ao clímax durante a relação sexual com o parceiro, mas podem chegar por meio da masturbação. Estudos e pesquisas sobre o funcionamento e comportamento sexual feminino, desde Masters e Johnson nos anos 60, e o Relatório Hite, dos anos 70 em diante, acumularam informação, e mesmo que seus resultados tenham sido coletados de forma imprecisa, por meio de auto-relatórios, depoimentos e estatísticas não randômicas, estabeleceram algum conhecimento. Eles estimam que 5% a 15% das mulheres sexualmente ativas nunca tiveram orgasmo. Nada estaria fundamentalmente errado com elas, do ponto de vista fisiológico. O tamanho do clitóris, sua distância da abertura vaginal, e outras variações anatômicas não têm correlação com a capacidade de ter orgasmos, diz o psicólogo social Clive M. Davis, da Universidade de Syracuse, EUA.

Muitos fatores podem comprometer a habilidade de uma mulher em alcançar o orgasmo, incluindo algumas doenças e intervenções médicas. Até dez anos atrás, por exemplo, cirurgiões faziam histerectomia, removendo o colo do útero, assim como o restante do órgão, a fim de prevenir o câncer cervical. Mas em muitas mulheres, essa região é extremamente sensível e importante para o prazer sexual. É recente a realização de histerectomias supracervicais, que mantêm o colo do útero intacto, observa Sadja Greenwood, professora da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Algumas drogas psicoativas e anti-hipertensivas também comprometem o orgasmo, assim como disfunções hormonais. Se uma mulher é saudável, está livre de distúrbios conhecidos por obstruir o orgasmo. As razões pelas quais não consegue atingir o clímax, provavelmente têm origens emocionais ou psicossociais, observa a assistente clínica Linda P. Alperstein, de São Francisco.
ENTREGA E DISFUNÇÕES
Muitas mulheres sofrem de depressão, mas não se dão conta, a não ser quando o parceiro se queixa de sua falta de desejo. O transtorno disfórico pré-menstrual, a gravidez, o puerpério e a transição para a menopausa, são condições que comprometem substancialmente o desejo feminino, lembra a psiquiatra Carmita Abdo, responsável pelo Projeto Sexualidade (Prosex), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). Ela acrescenta, porém, que 60% das disfunções sexuais femininas são de origem secundária, ou seja, são adquiridas no relacionamento, dependendo do parceiro. Baseada em pesquisas recentes sobre o comportamento sexual dos brasileiros, a psiquiatra observa que 25,8% dos homens têm queixa de ejaculação precoce e 45% apresentam algum grau de disfunção erétil.

Estudiosos da sexualidade conjeturam sobre as diferenças de expressão do desejo e excitação entre os sexos e quanto as mulheres podem influir no desenvolvimento satisfatório da relação sexual. “O homem tem duas fontes de desejo, que são a fantasia e o olhar, enquanto elas dependem do tato, da atenção, da palavra, do ouvir, para manter o interesse ao longo do ato sexual”, diz a médica, citando pesquisas da especialista canadense em sexualidade, Rose Marie Basson, que reinterpretou o ciclo de resposta sexual estabelecido pelo casal pioneiro dos estudos da sexualidade humana, Master e Johnson.

Mesmo que se sinta confortável com o parceiro, e independentemente da estimulação que funcione para ela, distrações da mente podem interferir no processo orgásmico. “As mulheres podem ficar ansiosas ou preocupadas com a duração da relação ou com seu corpo. Muitos ingredientes entram na mistura que permite a elas experimentar o prazer que leva ao orgasmo”, observou Lonnie Barbach, sexóloga americana. Não são raras as vezes em que ficam excitadas, mas têm problemas para relaxar. “O problea é que há mulheres que querem parecer a Monalisa, e não uma gárgula, quando está tendo um orgasmo, mas essa preocupação em se manter no controle pode atrapalhar”, observa Alperstein. “Na maior parte do tempo, tentamos lutar contra a entrega.”

Raiva, fadiga, stress e depressão interferem particularmente no orgasmo. Traumas anteriores, tais como estupro ou abuso sexual, também impõem barreiras. “Um bom funcionamento sexual não é atestado de boa saúde mental, e funcionamento sexual problemático não é atestado de problemas emocionais”, diz Alperstein. “Você pode ter problemas para obter orgasmo, que não são psicológicos ou emocionais”. Algumas mulheres precisam de terapia para lidar com as questões fundamentais que as impedem de experimentar o clímax, enquanto outras podem beneficiar-se de informação educacional e da prática, sustenta Barbach.

Para a maioria, a chave está em reconhecer que seu corpo é o melhor professor. “A melhor maneira para ter um orgasmo é aprendendo sobre seu corpo por meio da masturbação masturbação”, diz a sexóloga Betty Dodson, de Nova York. “Uma vez encontrado o que funciona para ela, pode compartilhar essa informação com seu parceiro.” Essa abordagem ostenta altos índices de satisfação. “A idéia é focar no prazer, não em conseguir o orgasmo”, conclui Barbach.

Estado de frenesi

Durante experiência em laboratório, o neurocientista Jim Pfaus, da Universidade Concórdia de Montreal, no Canadá, administrou experimentalmente, o afrodisíaco sintético bremelanotide ou PT-141 em ratas. Normalmente contidas, sob o efeito desse composto, elas corriam até os pasmos machinhos e os provocavam com caretas esquisitas e toques de vibrissas nos focinhos deles. Se o macho não respondia às investidas, a performance da rata aumentava em ritmo e em intensidade. Se ainda assim ele persistia plantado no lugar, a rata sapecava-lhe um tapa no focinho. A estratégia dava certo. O macho disparava atrás dela e a satisfazia pela cópula.