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Mutação em enzima pode indicar menor tolerância à dor

Uma das proteínas responsáveis pela quebra do álcool pode ter papel importante no alívio da sensação dolorosa

maio de 2015
Stephani Sutherland
SHUTTERSTOCK
Mais de meio bilhão de pessoas carregam uma deficiência genética que desabilita a enzima responsável por eliminar substâncias alcoólicas do corpo, popularmente conhecida como “rubor asiático”, porque a maioria dos que a apresentam portadores é descendente dos chineses Han. Uma pesquisa publicada em setembro passado na revista Science Translational Medicine sugere que a mutação pode comprometer também a tolerância à dor. A descoberta aponta para um novo alvo de atuação das drogas que ajudam a aliviar o incômodo e sugere que o consumo de bebida alcoólica pode agravar problemas inflamatórios como a artrite.

Quando o álcool é consumido, o corpo quebra sua estrutura em vários subprodutos, como os compostos químicos chamados aldeídos, nocivos se permanecem no organismo por muito tempo e que podem causar sintomas como rubor, náuseas e vertigens. Na maioria de nós, estes compostos são imediatamente quebrados pelo aldeído desidrogenase (ALDH2). Nas pessoas com a alteração genética, porém, essa enzima está desabilitada.

A doutora em imunologia Daria Mochly-Rosen e seus colegas da Universidade Stanford modificaram geneticamente alguns camundongos para que transportassem a mutação que desativa a ALDH2. Depois disso, injetaram um composto inflamatório na pata dos ratos alterados e de outros saudáveis, provocando reações de vermelhidão e inchaço. Os animais com deficiência da enzima mostraram maior sensibilidade ao toque em comparação com aqueles com a ALDH2 funcional. Os cientistas, então, trataram todos os roedores com uma nova droga chamada Alda-1, que aumenta a atividade dessa enzima, e observaram redução dos sintomas de dor nos dois grupos de animais.

Os pesquisadores ficaram surpresos ao encontrar aldeídos no local da inflamação, já que os ratos não tinham sido expostos ao álcool. A descoberta sugere que esses compostos naturais produzidos pelo organismo contribuem significativamente para a sensação de desconforto e são controlados pela ALDH2.

Ainda é cedo para apontar as implicações dos resultados. Daria pretende agora investigar se pessoas com a mutação experimentam a dor de forma diferente do restante. Curiosamente, uma parte dos descendentes dos chineses Han parece ter um limiar menor. Essa característica tem sido atribuída a fatores culturais, mas se a ALDH2 interfere em nossa sensação de incômodo e a Alda-1 pode ativar a enzima também nos humanos, é provável que esse agente possa acelerar o metabolismo do aldeído e diminuir o desconforto em pessoas com e sem a mutação.

O desenvolvimento de fármacos para esse fim seria uma ótima notícia para quem não responde bem aos opioides, que têm sido a única opção por décadas. Ainda há muito trabalho até que novos medicamentos cheguem às prateleiras das farmácias. A constatação de que os aldeídos desempenham um papel na dor inflamatória pode ser útil para muitos, principalmente para quem sofre com doenças como a artrite, que, segundo o estudo, pode ser amenizada com a diminuição do consumo de álcool.

 

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