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Narcisismo e individualidade são abordados em filme de Roman Polanski

Em Deuses da Carnificina, o cineasta analisa valores éticos das relações contemporâneas

agosto de 2012
© Divulgação
por Marta Okamoto e Patricia Porchat 

É difícil não ver em Deus da carnificina, de Roman Polanski, certa crítica pessoal à moral americana, seus valores e seu cinismo. O cineasta, em prisão domiciliar por sete meses na Suíça, escreveu o roteiro adaptando a peça de teatro homônima, da francesa Yasmine Reza.

Polanski foi detido por causa de uma pendência com a Justiça dos Estados Unidos. Condenado em 1977 por manter relações sexuais com uma menor, fugiu para a França onde vive até hoje. Em 2009 foi preso ao chegar ao aeroporto de Zurique, a pedido das autoridades americanas, que aguardaram, em vão, sua extradição. Meses depois foi liberado pelas autoridades suíças. A condenação impede que ele volte aos Estados Unidos, onde viveu por anos. Foi lá que sua mulher, a atriz Sharon Tate, foi assassinada.  

Poucas coisas são mais sufocantes do que estar confinado a algum ambiente, seja ele qual for. O espectador de Polanski, aprisionado como voyeur de uma cena interminável de carnificina, lembra o leitor do clássico Longa jornada noite adentro, escrito em 1941 pelo dramaturgo americano Eugene O´Neill e também adaptado para o cinema com a direção de Sidney Lumet. Em ambas as obras quatro personagens enclausurados revelam intimidades e a decomposição de sua consistência moral.

A carnificina de Polanski se passa dentro de um apartamento em Nova York. Com exceção da primeira e da última cenas, tomadas de crianças vistas ao longe em um parque, somos impedidos, como espectadores, de deixar a sala na qual dois casais começam por trocar discursos envernizados e polidos, mas rapidamente deixam transparecer a complexidade das relações inter e intrassubjetivas, marcadas por aspectos da atualidade.

Alan, personagem de Christoph Waltz, e Nancy, vivida por Kate Winslet, visitam Michael, interpretado por John Reilly, e Penélope, encarnada por Jodie Foster. O primeiro casal pretende se desculpar por uma briga em que seu filho agrediu o filho de Michael e Penélope. Alan e Nancy são de classe média alta. Ele, um importante e ocupado advogado que fala incansavelmente ao celular; ela, uma bem-sucedida corretora de investimentos. Michael e Penélope têm situação financeira menos confortável: ele é vendedor de material hidráulico e ela, escritora com um único livro publicado.

Este encontro de casais, aparentemente tão diferentes entre si, que se inicia de forma correta e educada a partir de um gesto de desculpas (aliás, pode haver algo tão civilizado quanto um pedido pessoal de desculpas?), torna-se, com o passar do tempo, um encontro marcado por críticas e acusações, cobranças e agressões verbais – uma verdadeira batalha campal contemporânea. 

Entre a tentativa de ir embora, o oferecimento de um café com torta, nova tentativa de partida e, em seguida, o compartilhar de uma dose de uísque, os personagens circulam pela sala, quase que numa coreografia. Paralelamente, entre eles surgem temas como a maneira mais adequada de educar os filhos, a violência das gangues adolescentes, o lucro da indústria farmacêutica a qualquer custo, a falta de escrúpulos do capitalismo, o que é verdade ou mentira, o valor do trabalho. Afinal, qual o valor da vida?

No desmanche de papéis tão rigidamente estabelecidos no início do filme, os valores e a ética de cada um se mostram de maneira fluida, vacilante, itinerante. Nesse processo, os personagens ancoram-se em posições diferentes a cada momento, seja na identidade de gênero, seja na identidade profissional ou, ainda, como parte de um casal. As mulheres se unem para atacar os homens, mas no fundo os amam... e os odeiam. O bemsucedido advogado defende a indústria farmacêutica que, infelizmente, produz remédios de resultados duvidosos. Mas, consciente do paradoxo, afirma: “Quem se preocupa com alguma coisa além de si mesmo?”. Na dinâmica grupal, o amor entre um casal justifica o enfrentamento da outra dupla, mas a desavença com o parceiro produz solidariedade entre opressores e oprimidos. Por vezes, a família é tudo. Em seguida, ela é posta como se fosse a pior coisa que Deus inventou.

Enfim, a aparente maturidade se desfaz e revela um discurso individualista e narcísico, mais próximo ao das crianças... Como diz Alan: “Ninguém se importa com ninguém”. Valores e ética ou, justamente, a falta deles, se revelam por trás de falas e comportamentos calcados no “politicamente correto”. Carnificina moderna!

DEUS DA CARNIFICINA. 80 min – França, Alemanha, Polônia e Espanha. Direção: Roman Polanski. Elenco: Kate Winslet, Jodie Foster, John C. Reilly, Christoph Waltz, Elvis Polanski, Eliot Berger, Joseph Rezwin, Nathan Rippy, Tanya Lopert, Julie Adams