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Nem tão boas, nem tão más

Versão de Cinderela é convite à reflexão sobre arquétipos femininos e aspectos sombrios da figura materna

junho de 2015
DIVULGAÇÃO
Hellen Reis Mourão

Era uma vez uma linda menina chamada Ella que vivia feliz com seus pais, até que com a morte de sua mãe entra em cena a madrasta. Assim, como tantos outros contos de fadas, começa a mais recente adaptação de Cinderela para o cinema. A perda da boa mãe simboliza um momento crítico na vida da criança, uma quebra da idealização com as figuras parentais, justamente na passagem da infância para a adolescência. Segundo a psicóloga analítica Marie-Louise Von Franz, a morte da mãe marca o início do processo de individuação. Na versão dos irmãos Grimm, sobre seu túmulo materno cresce uma árvore onde pousa uma pomba branca que aconselha a menina, numa referência a algo que sobrevive à mãe e a substitui.  O filme, porém, segue a obra de Charles Perrault onde em vez da árvore há uma fada madrinha.

No processo feminino de individuação, porém, a identificação excessiva com a mãe – ainda que boa – pode dificultar o desligamento de padrões impostos. As irmãs adotivas de Cinderela apropriam-se desse modelo sem autenticidade, vestindo-se de forma igual e seguindo exatamente o que a mãe lhes diz. Nesse sentido, podemos pensar que a madrasta simboliza a boa mãe que passou do tempo de ser boa e simplesmente devorou a personalidade das filhas.

No Ocidente, a figura materna é ressaltada apenas por seu lado luminoso e aspectos sombrios da Grande Mãe são suprimidos – o que, na prática, faz com que tantas mulheres se sintam no dever de serem perfeitas, uma missão que está fadada ao fracasso. No filme, a mãe de Cinderela lhe dá um conselho que causou polêmica em vários meios: que seja sempre gentil e corajosa. A personagem da madrasta, no entanto, vem trazer outra dimensão à personalidade de Ella, oferecendo limites à ingenuidade e à doçura extrema.

Em seu caminho, a jovem heroína busca ser aceita e sofre perseguições. Se observarmos grupos de meninas podemos ver que elas se comportam e se vestem de forma igual para se sentirem aceitas e pertencentes. Aquelas que de certa forma não se encaixam nesses padrões são postas de lado. Entretanto, no caso de Cinderela, o sofrimento é compensado pelo desenvolvimento da própria personalidade. Na psicologia analítica, a árvore justamente símbolo do processo de amadurecimento emocional.

Agora, se observarmos do ponto de vista da madrasta (que no filme apresenta uma dimensão mais humana que no conto original), percebemos que ela faz de tudo para ser aceita e inclusa. Seus atos são pautados pela competição com a mulher morta (e, como tal, idealizada e sem defeitos) pelo amor do marido. Humana, a madrasta sofre por disputar espaço com uma “deusa” e passa a perseguir a menina, memória viva de sua poderosa rival.

Ella se torna uma serviçal e passa a dormir entre as cinzas, uma alusão à humilhação e ao rebaixamento social. Também é possível associá-las à operação alquímica mortificatio, que representa a experiência de morte e transformação do corpo por meio da queima no fogo das emoções. Seria uma derrota para o ego, um encontro com seus aspectos sombrios. Isso significa que o aspecto ingênuo e infantil do psiquismo da protagonista deve morrer, antes que ela possa entrar em contato com o masculino. É neste momento que Ella passa a se chamar Cinderela, ou Gata Borralheira – é o resultado de uma iniciação, ela já não é mais a mesma pessoa.

Indignada, ela foge para a floresta e encontra o príncipe que participa de uma caçada. Nesse ponto há uma mudança significativa em relação ao conto: o dilema do príncipe, algo inexistente no conto original. Ele é órfão de mãe e seu pai está doente, por isso é preciso que encontre uma esposa para que possa assumir o lugar paterno – mas sua mulher deve ser uma princesa. O rei, que representa o self na consciência coletiva, precisa se renovar. Ou seja: símbolos coletivos se desgastam; religiões, convicções e verdades envelhecem e precisam ser renovadas. No filme vemos que o reino é composto apenas por figuras masculinas, mas como Marie-Louise Von Franz aponta, o feminino – flexível, subjetivo – prioriza a emoção e rompe regras. A encontrar Cinderela, o príncipe desiste de caçar o cervo, pois se dá conta de que o fazia de forma automática, apenas porque era uma convenção. Apaixonado pela moça, uma simples camponesa, decide casar-se com ela – estabelece a exceção.

Cinderela, porém, é proibida pela madrasta de ir ao famoso baile e aparece então a fada madrinha, essa emanação feminina de amor e proteção, que permanece com a heroína, e ressurge com aspecto de uma mulher idosa, experiente sábia. O ato de usar magia nos contos de fadas para escapar de um perigo ou conseguir algo indica que o personagem não está pronto para enfrentar um conflito diretamente e recorre a um subterfúgio. Psicologicamente, significa que por vezes não podemos enfrentar um conflito e precisamos aguardar o momento certo para isso. No filme, Cinderela não enfrenta a sociedade com sua identidade real; só aos poucos pode ser reconhecida por quem realmente é.

Interessante observar que a única coisa que a fada não transformou foi o sapato – mas o criou “do nada”. Calçados, assim como a roupa, estão ligados a persona (à “máscara” que usamos para enfrentar o mundo). Marie-Louise ressalta que com os sapatos mantemos os pés na terra, em contato com a realidade, seguimos um caminho e também podemos mostrar poder, pisar no outro. O sapato de cristal (em grego, krystallos, “gelo”) simboliza algo puro, espiritual, divino, uma referência à individuação. E é justamente o sapatinho que sobrevive ao término da magia, é a única coisa que realmente pertence a Cinderela – e revela sua identidade ao príncipe. No encontro entre masculino e feminino – anima e animus, como salientou Jung – Cinderela se torna rainha. E o reino encontra equilíbrio, ainda que temporário – pois outros aspectos inconscientes deverão ser encarados, de novo seremos forçados a olhar para aspectos desconhecidos de nós mesmos. E renovações se farão necessárias.

Hellen Reis Mourão é psicanalista, pós-graduada em psicologia analítica , especialista em mitologia e contos de fadas.

 

Cinderela
1h44min – Estados Unidos, 2015
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Lily James, Cate Blanchett, Richard Madden e outros

Esta matéria foi originalmente publicada na edição de junho de Mente e Cérebro 2015, que pode ser adquirida na Loja Segmento: http://bit.ly/1FqeWJ6

 

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