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Neurociência para superar memórias assustadoras

Pesquisadores descobriram um novo jeito de remover medos específicos do cérebro de uma pessoa

setembro de 2017
Da redação
SHUTTERSTOCK

Pesquisadores descobriram um novo jeito de remover medos específicos do cérebro de uma pessoa utilizando uma combinação de inteligência artificial e tecnologia de escaneamento cerebral. Essa técnica, publicada no periódico científico Nature Human Behaviour, pode levar a um novo jeito de tratar pacientes com condições como estresse pós-traumático e fobias. Doenças relacionadas ao medo afetam cerca de uma a cada 14 pessoas e exercem pressão considerável nos serviços de saúde mental. Atualmente, uma das abordagens comuns é submeter o paciente a alguma forma de terapia de aversão, na qual confronta o medo sendo exposto a ele, na esperança de que aprenda que aquilo que teme não é danoso, afinal. No entanto, essa terapia é desagradável e, por isso, muitos optam por não praticá-la. Agora, uma equipe de neurocientistas da Universidade de Cambridge, do Japão e dos Estados Unidos descobriu uma maneira de remover, inconscientemente, do cérebro, uma memória relacionada ao medo. A equipe desenvolveu um método para ler e identificar uma lembrança ligada ao medo usando uma tecnologia chamada feedback neural decodificado. A técnica utilizou escaneamento cerebral para acompanhar a atividade no cérebro e identificar padrões complexos de atividade que parecessem uma memória específica ligada ao medo. No experimento, uma memória de medo foi criada em 17 voluntários saudáveis através da administração de um breve choque elétrico quando eles viam certas imagens no computador. Quando o padrão era detectado, os pesquisadores sobrepunham a memória relacionada ao medo dando uma recompensa para os objetos do experimento. 

“O modo como a informação é representada no cérebro é muito complicado, mas o uso de métodos de reconhecimento de imagem ligados à inteligência artificial (IA) nos permite identificar aspectos do conteúdo daquela informação”, diz o neurocientista Ben Seymour, do Departamento de Engenharia da Universidade de Cambridge, um dos autores do estudo. “Quando induzimos uma leve memória de medo no cérebro, fomos capazes de desenvolver um método rápido e preciso de lê-la usando algoritmos de inteligência artificial. Segundo o cientista, o desafio foi, então, achar uma maneira de reduzir a memória de medo, sem evocá-la conscientemente.

“Percebemos que, mesmo quando os voluntários estavam apenas descansando, podíamos ver breves momentos em que o padrão de atividade cerebral flutuante possuía características parciais de memórias de medo específicas, mesmo que os voluntários não estivessem conscientes disso. Como podíamos decodificar esses padrões cerebrais rapidamente, decidimos dar uma recompensa para os objetos – uma pequena quantia em dinheiro – toda vez que detectávamos essas características da memória.” 

Os pesquisadores repetiram o procedimento por três dias. Foi dito aos voluntários que a recompensa financeira que receberiam dependia de sua atividade cerebral, mas eles não sabiam como. Ao conectar continuamente padrões sutis de atividade cerebral a correntes elétricas, os cientistas esperavam superar a memória do medo. “As características da memória que foi previamente sintonizada para prever o doloroso choque estavam, agora, sendo reprogramadas para prever algo positivo”, explica a neurocientista Ai Koizumi, do Instituto Internacional de Pesquisas Avançadas de Telecomunicações, em Kyoto, e do
Centro de Informação de Redes Neurais, em Osaka,
 que liderou a pesquisa.

O grupo testou o que acontecia quando se mostravam para os voluntários fotos de coisas que estes antes associavam aos choques. “Num feito notável, não observamos mais a típica resposta de medo em que a pele sua. Nem identificamos um aumento da atividade na amígdala, o centro de medo do cérebro”, afirmou Koizumi. “Isso significa que fomos capazes de reduzir a memória do medo sem que os voluntários tivessem de experienciar o medo conscientemente no processo.”

Ainda que o tamanho da amostra nesse estudo inicial tenha sido relativamente pequeno, a equipe espera que as técnicas possam ser desenvolvidas para um tratamento clínico de pacientes com fobias ou estresse pós-traumático.

“Para aplicar isso aos pacientes, precisamos construir uma biblioteca de códigos de informação do cérebro para as várias coisas das quais as pessoas possam ter medo patológico, como, por exemplo, aranhas”, acrescenta o doutor Seymour. “Em princípio, os pacientes poderiam ter sessões regulares de feedback neural decodificado para remover gradualmente a resposta de medo que essas memórias desencadeiam.”

Alguns pesquisadores acreditam que um tratamento assim poderia trazer benefícios enormes, em comparação com as abordagens tradicionais e medicamentosas. Os pacientes poderiam evitar também o estresse associado com terapias de exposição e todos os efeitos colaterais que podem resultar de tais drogas. O problema é que ainda não se sabe ao certo que destino seria dado à emoção “descolada” da memória associada ao medo. Especialistas temem que a angústia persista e, na impossibilidade de oferecer significados para a sensação de angústia, surjam sintomas físicos e outros tipos de adoecimento psíquico. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de setembro de Mente e Cérebro, disponível em: ImpressaAndroidIOS e WEB

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