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Nise e a psiquiatria rebelde

Pinturas, fotos e desenhos em Curitiba

fevereiro de 2009
Divulgação
As surpreendentes relações entre criatividade, arte e loucura podem ser vistas na exposição Nise da Silveira – Caminhos de uma psiquiatra rebelde, em Curitiba. Desenhos, esculturas e pinturas de esquizofrênicos dividem espaço com arquivo documental, fotografias e depoimentos que, em conjunto, sintetizam a intensa trajetória profissional da psiquiatra que revolucionou o tratamento de doentes mentais.

Em oposição à insulinoterapia, aos eletrochoques e às lobotomias, Nise da Silveira (1905-1999) desenvolveu, nos anos 40, métodos terapêuticos humanistas e libertários, tendo na arte seu suporte e buscando na psicologia analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961) inspiração. Essa sua vertente combativa e o panorama político e psiquiátrico da época podem ser vistos nas duas salas reservadas para a mostra.

Ao tomar contato com tais imagens, plenas de elementos rituais, metamorfoses, elementos fantásticos e circulares (mandalas), Jung atribuiu a elas uma função compensatória, auto-curativa, espécie de tentativa inconsciente para contornar o “caos consciente”. Valorizados estética e artisticamente, muitos desses artistas representantes da chamada “arte bruta” ganharam notoriedade fora do âmbito psiquiátrico, como Bispo do Rosário (1909-1989), cuja obra foi exposta na Bienal de Veneza. Importante centro de referência no tratamento humanitário a portadores de doença mental e na pesquisa sobre criatividade, psiquismo e psicopatologia, o Museu de Imagens do Inconsciente, criado por Nise da Silveira, teve recentemente seu acervo tombado pelo Iphan.

Foi no Serviço de Terapêutica Ocupacional, do Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio, que a psiquiatra desenvolveu, em 1952, os famosos ateliês de desenho, pintura, modelagem e xilografia destinados aos internos, que deram origem ao Museu de Imagens do Inconsciente. A idéia era que tais indivíduos, via criação livre, pudessem expressar seu mundo interno, abrindo-lhes novas vias de comunicação e de resgate subjetivo. Obras de oito desses pacientes-artistas fazem parte da exposição. Entre elas, os trabalhos de Lúcio Noeman antes e depois da lobotomia. Segundo o curador da mostra, Luiz Carlos Mello, a comparação dos trabalhos expressa “a ruína da criatividade, da abstração, do geometrismo” após o procedimento cirúrgico. O visitante poderá apreciar também as obras de Emygdio de Barros (1895-1986), as esculturas de Adelina Gomes (1916-1984) e o geometrismo multifacetado de Fernando Diniz (1918-1999).