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Noites em claro podem causar distúrbios psiquiátricos

A privação de sono causa rearranjos no circuito neural, o que torna as pessoas mais sujeitas a perturbações mentais

agosto de 2017
Da redação

Não há dúvida de que as pessoas precisam dormir.  A qualidade do descanso está associada a várias disfunções físicas e psíquicas, desde problemas no sistema imunológico, déficits cognitivos, até o descontrole do peso. “Quase todas as desordens psiquiátricas mostram alguns problemas com o sono”, avalia o psicólogo Matthew Walker, da Universidade da Califórnia. Antigamente os pesquisadores acreditavam que problemas psiquiátricos é que desencadeavam problemas do sono. Novas pesquisas, no entanto, sugerem que o que ocorre, na verdade, é o inverso. Ou seja, problemas com o sono é que podem causar distúrbios mentais.

A equipe de Walker e seus colaboradores da faculdade de Medicina da Universidade Harvard chegaram a essa conclusão, publicada recentemente na Current Biology, depois de estudarem 26 estudantes saudáveis, com idades entre 24 e 31 anos, que passaram algumas noites acordados (estudando) ou dormindo a noite toda. Desse total, 14 voluntários ficaram 35 horas seguidas sem “pregar os olhos” antes de serem submetidos a um exame de ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla em inglês) que esquadrinhava o cérebro dos participantes enquanto viam um conjunto de 100 fotos que se tornavam gradativamente mais perturbadoras. As primeiras imagens eram fotos de cestos de vime vazios sobre uma mesa; depois, de uma tarântula sobre o ombro de uma pessoa e, finalmente, fotos de vítimas de queimaduras e outros acidentes traumatizantes.

Os pesquisadores monitoraram principalmente a amígdala – uma estrutura cerebral que decodifica a emoção – e observaram que os dois grupos de voluntários exibiam o mesmo padrão de atividade cerebral quando eram mostradas imagens leves. Mas, quando as cenas se tornavam mais assustadoras e violentas, a amígdala dos que tiveram privação do sono “surtou”, mostrando atividade 60% maior que em relação à resposta normal. Além disso, os pesquisadores observaram que entre os que ficaram sem dormir havia cinco vezes mais neurônios transmitindo impulsos no cérebro.

Walker descreveu a resposta emocional ampliada, quando se está cansado, como “profunda”. “Nunca vimos uma diferença tão grande entre dois grupos em nossos estudos anteriores”, comentou. A equipe também verificou os resultados da fMRI para determinar se qualquer outra região do cérebro tinha um padrão similar de atividade, o que indicaria que as regiões do cérebro estavam se comunicando. Nos participantes normais, a amígdala parecia estar interagindo com o córtex medial pré-frontal – uma camada externa do cérebro que ajuda a contextualizar experiências e emoções. Mas nos cérebros cansados, a amígdala parecia estar “reconectada” a uma área do cérebro chamada locus coeruleus, que secreta norepinefrina – um precursor do hormônio adrenalina que aciona reações do tipo atacar ou fugir.

“O córtex medial pré-frontal é um policial do cérebro emocional”, observa Walker. “Ele nos torna mais racionais. A conexão inibidora piora quando as pessoas sofrem privação de sono. A amígdala parece ser capaz de ser estimulada repentinamente. Pessoas nesse estado parecem exibir um comportamento emocional pendular, passando de aborrecidas ou irritadas a apáticas ou sonsas, momentaneamente.”

“Parece haver uma relação causal entre o sono afetado e alguns transtornos psiquiátricos”, comenta Robert Stickgold, professor associado de psiquiatria na Universidade Harvard, não envolvido no estudo. Ele menciona pesquisas relacionando a apneia do sono (quando a respiração é interrompida) com déficits de atenção, hiperatividade e evidências de conexão entre depressão e insônia como exemplos. “Pode ser que regiões mediais frontais enviem ao resto do cérebro comandos para relaxar circuitos extremamente cansados ou alterados pela falta de sono”, diz.

A equipe de Walker, agora, planeja examinar os efeitos da interrupção de certos tipos de sono, como o REM ou o de ondas lentas. “Acredito que podemos começar a pensar em uma nova função para nosso cérebro, ao dormir: parece mesmo que, entre outras coisas, o sono, na verdade, prepara o cérebro para as interações sociais e emocionais do dia seguinte”, diz o cientista.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de agosto de Mente e Cérebro, disponível em: ImpressaAndroidIOS e WEB

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