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Novas experiências despertam recordações

Lembranças de eventos que pareciam banais podem ficar intensas depois, quando se mostram mais importantes do que no momento em que a vivência ocorreu

abril de 2017
Emilie Reas
SHUTTERSTOCK

Há muito tempo uma pergunta intrigante ronda os estudiosos do cérebro: o que constrói uma memória de longa duração? As pesquisas costumam sugerir que situações emocionais importantes criam raízes profundas, enquanto acontecimentos neutros e comuns do dia a dia promovem impressões fracas, que facilmente se desvanecem. Mas o que dizer de uma experiência que inicialmente não parecia nada memorável, mas que depois se mostrou relevante? Por exemplo, pense que você encontrou um vizinho na rua, ele elogiou a cor de sua roupa e, por um infortúnio, horas depois essa pessoa sofre um acidente que causa sua morte. Certamente, ainda que banais, as palavras do conhecido ganham maior importância por causa da tragédia que o vitimou – e o encontro corriqueiro se torna “o último”.

Memória use para preservar

Estudos anteriores com animais sugeriam que lembranças antigas podiam se tornar mais fortes, mas os cientistas não tinham conseguido replicar os resultados com seres humanos – pelo menos até agora. Novas evidências mostram que recordações inicialmente fracas são mantidas pelo cérebro por um período, durante o qual podem ser intensificadas.

Onde não moram as memórias

Num estudo recente publicado na Nature, psicólogos da Universidade de Nova York mostraram a 119 voluntários uma série de imagens de ferramentas e animais. Poucos minutos depois, os participantes do experimento visualizaram um novo conjunto de figuras do mesmo padrão, mas dessa vez ao mesmo tempo em que eram submetidos a um choque elétrico para aumentar a importância de apenas uma das categorias. Na sequência, as memórias dos participantes em relação a ambos os grupos de imagens foram testadas em três momentos: imediatamente, seis horas mais tarde e no dia seguinte. Os cientistas observaram que as pessoas se recordavam melhor das figuras da primeira série neutra se pertencessem ao mesmo grupo (ferramenta ou animal) mais tarde associado com o choque.

Ou seja: os cientistas constataram que, mesmo que um evento não pareça significativo no momento em que ocorre (como o encontro com o vizinho), uma pista posterior de que a experiência foi importante (sua morte) pode intensificar a memória antiga. Embora a pesquisa ainda não tenha demonstrado esse efeito fora do laboratório, os cientistas conjecturam que isso acontece muitas vezes na vida diária. E nem precisa haver uma tragédia envolvida. Por exemplo, imagine que você conheça várias pessoas em uma reunião social. Dias depois, durante uma entrevista para uma vaga de emprego muito almejada, você descobre que uma delas está no conselho de contratação. De repente os detalhes da conversa que teve na ocasião passada se tornam vívidos e memoráveis – enquanto o bate-papo que teve com outros na mesma ocasião se desbote com o tempo.

Pesquisadores reconhecem que, nesse campo, muitas questões ainda permanecem sem resposta. Por exemplo, depois que uma memória é criada, em até quanto tempo pode ser fortalecida? Que tipos de gatilhos podem desencadear essas mudanças? O próximo desafio do psicólogo Joseph Dunsmoor, da Universidade de Nova York, autor principal do estudo, é comprovar se situações positivas ou gratificantes (e não somente choques, tragédias ou sustos) provocam o mesmo efeito.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de fevereiro da Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2lU6Pqx