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Novas hipóteses para a origem da sinestesia

Pesquisadores acreditam que o fenômeno é causado por falhas na poda neural, que atinge seu pico na puberdade e leva à perda de uma enorme quantidade de sinapses

agosto de 2009
© JOHN BAVOSI/SPL/LATINSTOCK
Aromas que evocam cores, cores que despertam sons, sons que têm cheiro. As combinações possíveis são inúmeras. No fenômeno sensorial denominado sinestesia os sentidos se cruzam e o resultado fascinante intriga neurocientistas. Enquanto a causa é desconhecida, pesquisadores tentam apreendê-la por meio de teorias. Uma delas, que vem ganhando força nos últimos anos, é discutida por um trio de pesquisadores na revista Cognitive Neuropsychology, num artigo que busca, na filosofia e na literatura, pistas históricas a favor de um raciocínio que não se presta facilmente à experimentação científica. Segundo essa teoria, a sinestesia seria causada por falhas num mecanismo conhecido como poda neural, que atinge seu pico na puberdade e leva à perda de uma enorme quantidade de sinapses. Um descarte seletivo, em que o cérebro elimina conexões neurais de pouca relevância.

No adulto com sinestesia, esse fenômeno não teria ocorrido plenamente, e entre as sinapses que deveriam ter sido extintas estão aquelas que agora provocam o cruzamento e a contaminação dos sentidos. Nos últimos anos, algumas evidências obtidas em pesquisas com filhotes de macacos mostram que uma série de conexões entre distintas áreas sensoriais do cérebro, como os córtices visual e auditivo, não resiste à poda neural da juventude.
DIVULGAÇÃO
A consequência mais intrigante desse raciocínio, caso esteja correto, é a de que toda criança é sinestésica. A ideia é antiga e foi apresentada pela psicóloga canadense Daphne Maurer, em 1988. Mas o artigo dos pesquisadores Alex Holombe, Eric Altschuler e Harriet Over localiza a primeira menção à forma sinestésica de a criança sentir o mundo no livro Emile, de 1762, um tratado sobre educação infantil escrito pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau. Os autores destacam ainda a influência desse aspecto da obra no clássico de terror Frankenstein, de Mary Shelley. “Eu via, sentia, escutava e cheirava ao mesmo tempo, e isso foi, de fato, muito tempo antes de aprender a distinguir entre as operações de meus vários sentidos”, disse a quimera de inspiração gótica criada pela jovem britânica em 1818.

Devido a óbvias limitações de experimentação com seres humanos, não será fácil comprovar que a sinestesia é causada por falhas na poda neural. Em compensação, verifi car a possível sinestesia natural das crianças talvez seja um pouco menos complicado. As idéias de Rousseau e a criatividade de Shelley deveriam inspirar os neurocientistas nessa direção, sugerem os autores.