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O anjo da guarda do centro cirúrgico

A monitoração neurofisiológica intraoperatória é baseada em métodos neurofisiológicos que acompanham e avaliam funções das estruturas do sistema nervoso central e periférico em risco durante procedimentos cirúrgicos

setembro de 2016
Daniel de Souza e Silva
SHUTTERSTOCK

Você já ouviu falar em monitoração neurofisiológica intraoperatória (MNIO)? A menos que trabalhe num hospital, é pouco provável que conheça o termo que designa o conjunto de técnicas para a análise do sistema nervoso. São exames com nomes complexos que, originalmente, têm finalidade diagnóstica, como eletrencefalografia, eletroneuromiografia, potenciais evocados somatossensitivos, motores, auditivos e visuais, que passaram a ser utilizados no centro cirúrgico durante determinados tipos de cirurgia. O objetivo é preservar a integridade das estruturas neurais que correm risco de sofrer algum tipo de lesão ou, em outras situações, auxiliar no mapeamento funcional do sistema nervoso. 

Parece complicado? Sim. Mas, se pararmos para pensar, seria pouco provável que, nos dias de hoje, alguém aceitasse ser submetido a uma cirurgia sem ter os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a oxigenação do sangue acompanhados continuamente. Entretanto, a maioria das pessoas (e, acredite, até alguns médicos) não tem conhecimento da existência e da disponibilidade das técnicas de MNIO. Por esse motivo, participam de procedimentos cirúrgicos que, em outros países, não podem mais acontecer sem a atua-ção de uma equipe de MNIO.

De fato, a ideia de monitorar as funções do sistema nervoso durante procedimentos cirúrgicos não é nova. Em alguns países, isso já ocorre rotineiramente há mais de 30 anos. É claro que no início havia inúmeras limitações de ordem técnica, que tornavam os procedimentos missões quase impossíveis. Hoje, o progresso tecnológico transformou esse cenário. É possível determinar a integridade de uma via específica do sistema nervoso – como as vias auditivas – e ainda assegurar ao cirurgião que uma estrutura específica no campo cirúrgico tenha ou não atividade elétrica. Além disso, com o uso da técnica, alguns passos de uma cirurgia podem ser modificados enquanto o procedimento ocorre, de acordo com as repercussões sobre o sistema nervoso.

Mas, por diversas razões, a prerrogativa de solicitar a presença de uma equipe de MNIO para acompanhar uma cirurgia ainda é quase exclusivamente do cirurgião. Aos pacientes, os principais interessados nos melhores resultados possíveis de suas cirurgias, não é dado o direito de fazer essa solicitação – até mesmo porque a maioria nem sequer conhece a existência e a importância desse serviço. 

No entanto, essa situação pode ser modificada. Qualquer que seja o ponto de vista adotado para analisar a questão, as conclusões apontam para o mesmo caminho: aos olhos do cirurgião, a MNIO é uma maneira de aumentar as chances de sucesso das cirurgias. Para os planos de saúde, ou qualquer outra fonte pagadora, a utilização da MNIO é uma estratégia para que o prognóstico pós-operatório seja mais favorável e, indiretamente, menos oneroso com o tratamento de sequelas neurológicas. Para os hospitais, a disponibilização das técnicas de MNIO é uma forma de atrair os cirurgiões para que utilizem a sua estrutura. E, para os pacientes, bem, parece não ser necessária nenhuma argumentação, uma vez que está em jogo a saúde e própria vida das pessoas.

Já existem alguns consensos a respeito de quais tipos de cirurgia devem ser feitos com MNIO. Dentre eles destacam-se as neurocirurgias para a retirada de tumores do sistema nervoso central (cérebro e medula) ou periférico (raízes e nervos); cirurgias para correção de escoliose (deformidades extensas da coluna vertebral); cirurgias para retirada de placas ateromatosas que podem resultar em acidentes vasculares (endarterectomias de carótida); cirurgias realizadas por otorrinolaringologistas, nas quais a preservação do nervo facial é fundamental (timpanomastoidectomias), entre outras. 

Apesar dos benefícios da monitoração neurofisiológica intraoperatória, a incorporação do processo é complexa, seja no âmbito médico, na esfera econômica, logística ou forense. Mas é preciso que uma ampla campanha informativa seja desencadeada de forma que todos os envolvidos em uma cirurgia passem a ter as informações necessárias, para que as decisões referentes à escolha da equipe cirúrgica, do hospital, do material cirúrgico eventualmente necessário e da equipe de MNIO possam diminuir riscos de déficit neurológico pós-cirúrgico permanente. 

A Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica (SBNC) tem participado ativamente dessa discussão por meio de consultas públicas, elaboração de pareceres e diretrizes. Mas sem dúvida há um longo caminho a percorrer. É preciso falar a respeito, formar conceitos, modificar alguns hábitos, disponibilizar as técnicas de MNIO em âmbito nacional, para que resultados cirúrgicos em nosso país se aproximem dos da literatura médica internacional. 

Programar, organizar e executar cirurgias é uma das tarefas mais complexas da medicina. Façamos uma analogia com uma orquestra sinfônica: são necessários inúmeros músicos, diferentes instrumentos, partituras complexas. Uma atuação sublime resulta em aplausos e exclamações da plateia com gritos de “bravo... bravíssimo!”. No ambiente cirúrgico, um bom resultado gera uma reação muito menos efusiva – mas certamente tão ou mais emocionante. 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de agosto de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/2bfD9N6 

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