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O brilho do cérebro escondido

Neurocientistas encaram uma revelação em relação aos neurônios: as células gliais respondem pela maior parte do trabalho realizado pelo cérebro e também pelas doenças

maio de 2012
© ALAN HOOFRING/SHUTTERSTOCK
por F. R. Douglas Fields

Há alguns anos, sentados na semiescuridão do laboratório do Instituto Nacional da Saúde (NIH, na sigla em inglês), minha colega Beth Stevens e eu nos preparávamos para fazer uma corrente elétrica moderada passar por células neurais de feto de camundongo mantidas em cultura. Usávamos uma nova técnica microscópica que permitiria observar a atividade elétrica como um brilho fluorescente emitido pelo corante misturado à cultura e esperávamos descobrir se as células de Schwann – comuns no sistema nervoso − poderiam apresentar algum tipo de reação. Essas estruturas de aparência estranha produzem um tipo de isolamento em torno dos neurônios. Na verdade, não pretendíamos vê-las, pois elas não se comunicam eletricamente. Liguei o interruptor e os neurônios brilharam imediatamente. Em seguida também as células de Schwann começaram a brilhar como se insistissem em dar uma resposta.

O corpo mais misterioso que conhecemos é essa “coisa” que carregamos entre as orelhas, e boa parte das discussões sobre o funcionamento do cérebro que ainda permanecem mostra que muitas ideias estão equivocadas. Da mesma forma que os astrônomos medievais se surpreenderam ao saber que a Terra não era o centro do Universo, os neurocientistas atualmente encaram uma revelação semelhante em relação aos neurônios.

Até recentemente, nossa compreensão do cérebro se baseou em ideias de mais de um século, conhecidas como doutrina neural. Essa teoria estabelece que toda informação do sistema nervoso é transmitida por impulsos elétricos através de redes de neurônios que se interligam por conexões sinápticas. Mas esse teorema básico está completamente equivocado. Novas pesquisas mostram que há informações que passam ao largo dos neurônios, fluindo, sem eletricidade, por redes de células chamadas glias (ou gliais). Esses estudos estão revolucionando nossa compreensão de vários aspectos da funcionalidade de cérebros saudáveis e doentes, esclarecendo várias dúvidas antigas sobre os processos de memorização e aprendizagem.

Novas pesquisas destacam o papel central da glia no processamento da informação, em doenças neurológicas e transtornos psiquiátricos, e têm despertado grande interesse da comunidade científica. Algumas células gliais aceleram a transmissão da informação entre regiões distantes do cérebro, ajudando-nos a comandar processos cognitivos complexos. Outras se deterioram à medida que envelhecem, provocando demência. As descobertas têm grandes implicações não só na compreensão do funcionamento do cérebro, mas também no desenvolvimento de novos tratamentos de doenças neurológicas e psicológicas.