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O "cérebro grávido" é um mito?

Pesquisas sugerem que instabilidade emocional e alterações de memória na gestação podem estar associadas a ansiedade e expectativas

abril de 2016
SHUTTERSTOCK

Quatro em cada cinco mulheres dizem enfrentar alterações na memória e na capacidade cognitiva durante a gravidez, deixando-as mais propensas ao esquecimento e à lentidão de raciocínio. No entanto, estudos sobre o fenômeno, em geral, não sustentam essas percepções das gestantes: embora algumas pesquisas tenham encontrado evidências de dificuldades em certos tipos de tarefas, outras (que incluem a apresentada em um recente artigo publicado por pesquisadores da Universidade de Utah) não encontraram nenhum sinal de problemas dessa ordem. Alguns especialistas acreditam que o “cérebro grávido” e seu primo pós-natal, o baby brain, poderiam ser em grande parte produto de um viés de confirmação: muitas mulheres que estão esperando por um bebê ou que acabaram de ter um presumem que irão experimentar confusão mental e, assim, acreditam que realmente são afetadas. Outros argumentam que é simplesmente muito difícil confirmar esses sintomas num ambiente de laboratório.

Em um estudo encerrado há poucos meses, pesquisadores da Universidade Brigham Young aplicaram testes cognitivos e neuropsicológicos em 21 grávidas no terceiro trimestre da gestação e, novamente, seis meses depois de darem à luz. Eles fizeram as mesmas avaliações em intervalos semelhantes em outras 21 que nunca haviam engravidado. E não encontraram diferenças entre os grupos, independentemente do momento em que foram testados, inclusive antes e após o parto. Esses resultados combinam com os de uma pesquisa de 2003 que constatou que as mulheres que esperavam bebê não pontuaram de modo diferente das não grávidas em testes de memória verbal e atenção concentrada e difusa.

“Os dados variam, mas a maioria dos estudos sugere que há pouca ou nenhuma alteração na memória associada à gravidez”, afirma o psicólogo Michael Larson, da Universidade Brigham Young, coautor do recente artigo. Ele acredita que o mito persiste porque muitas mulheres encaram, de maneira seletiva, as evidências que suportam expectativas culturais. Por exemplo, quando perde as chaves do carro, a grávida pode atribuir o fato a dificuldades neurais, sem considerar as inúmeras vezes que fez o mesmo antes de estar esperando bebê.

A psicóloga Joanna Workman, da Universidade de Albany, concorda que o viés de confirmação pode pesar, mas diz também que há mais em jogo. Em um estudo de 2011, uma equipe da Universidade da Colúmbia Britânica descobriu que, embora as gestantes não exibissem problemas em testes cognitivos em ambiente controlado, elas eram menos propensas do que as não grávidas a se lembrar de ligar para o laboratório quando solicitadas ou devolver o questionário no prazo. “Talvez as medidas não revelem diferenças porque esses lugares de testes costumam ser tranquilos, com o mínimo de distrações, diferentemente da vida cotidiana”, argumenta Joanna. 
(Por Melinda Wenner Moyer, jornalista)

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