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O desejo e suas possibilidades

Filme adaptado de conto inglês apresenta de forma delicada possibilidades de subversão de modelos convencionais de sexualidade, afeto e família

dezembro de 2015
Erane Paladino
DIVULGAÇÃO

Se a linguagem e a cultura são determinantes na formação psíquica, trazer ao discurso questões que, até agora, não poderiam ser vistas ou ditas pode ter caráter transformador. Apesar das constantes de padronizar comportamentos e se excluir diferenças tentativas ao longo dos séculos, a diversidade tem aberto seu caminho, quebrando o modelo cristalizado e rígido de moral e família convencional, que acorrenta laços afetivos e a sexualidade.

É com essa proposta que François Ozon apresenta Uma nova amiga, uma adaptação livre do conto da escritora inglesa Ruth Rendell.  O filme inicia com foco no casamento dos jovens David e Laura, e na relação da noiva com sua madrinha Claire, grande companheira de infância e adolescência. Pouco depois, porém, Laura adoece, vítima de um câncer precoce e devastador, no mesmo período em que engravida e dá à luz sua filha. No hospital, Claire promete à amiga estar sempre ao lado de David para ajudá-lo com o bebê e no que mais fosse necessário. Na primeira visita a David após a morte da amiga Claire surpreende o rapaz cuidando da filha vestido com as roupas da falecida. O constrangimento o leva a justificativas apoiadas em uma possível necessidade de manter a presença da mãe para acalmar o bebê, o que não convence Claire.

Com o tempo e a convivência, porém, ela e David desenvolvem uma intimidade que permite a ele expor-se publicamente usando roupas e nome de mulher – assim surge Virgínia, uma “nova amiga” para Claire. Da tensão inicial aparece uma cumplicidade com certa dose de atração e erotismo que parece desvendar em Claire seu lado homossexual, encantada pela porção feminina do amigo. E, a despeito do tom inusitado da situação, o relacionamento entre eles ganha força sexual e afetiva.

Sem esbarrar num clima panfletário, a narrativa propõe de maneira natural uma reflexão cuidadosa sobre o desejo e suas infinitas possibilidades. Vale reafirmar que estes referenciais tão arraigados nas sociedades judeo-cristãs impuseram valores, influenciando e marcando a cultura, a ciência, a medicina e a psiquiatria de forma especialmente intensa até há poucas décadas. A psicanalista e historiadora contemporânea Elizabeth Roudinesco alerta para a importância de evitar o reducionismo muitas vezes estimulado pelas ciências positivistas, na tentativa de normatizar categorias de comportamento e discriminar o que parece estranho. Essa dinâmica restringe os sujeitos a sistemas fechados que desconsideram as subjetividades e singularidades.

Um exemplo claro e didático se apresenta em 1952, na primeira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM).  A homossexualidade, neste caso, fica incluída nos distúrbios sociopáticos da personalidade, considerada um desvio sexual envolvendo comportamento patológico. Em 1968 passou a pertencer à classe dos desvios sexuais e somente a partir da terceira edição do DSM, em 1987, foi finalmente retirado do manual. O transexualismo surge na terceira edição classificado como disforia de gênero, o que foi revisto em 1994 com o diagnóstico de transtorno de gênero.

Este processo de patologização da homossexualidade e do transgênero foi delineado formalmente nas primeiras discussões, no século 19, por autores como o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing, na Alemanha. Estes entendiam essa prática associada ao desvio sexual, à degeneração e psicopatia. Sob a influência do positivismo e de ideias desenvolvimentistas, Freud escreveu em 1905 os Três ensaios sobre a sexualidade e apontou como aberrações sexuais os desvios, as inversões (ou o que chamou hermafroditismo psíquico) e o comportamento perverso.

Por outro lado, sua teoria sobre desenvolvimento sexual, complexo de Édipo e castração trouxe a importância das experiências emocionais da infância como bases para a vida psíquica. Tendemos a repetir estas matrizes apoiadas nas identificações estabelecidas nessas primeiras vivências. E em nosso percurso, buscamos novas soluções para as inevitáveis marcas dos conflitos vividos. É a experiência da castração que nos possibilita o contato com nossos limites e com a incompletude. A partir desta constatação, somos impelidos à busca incessante de satisfação, em direção a outras possibilidades, já que a expectativa de realização pelo prazer total se perdeu e ficou impossível. Este olhar pode transcender o normal e o patológico como únicas referências possíveis.  

O inusitado em Uma nova amiga surge, em grande parte, na atração de David/Virgínia por Claire, algo que extrapola o modelo “heteronormativo” previsto e coloca em pauta a questão de gênero, um tema contemporâneo complexo e desafiador aos pensamentos cartesianos. Na ordem do dia, a filósofa americana Judith Butler define gênero como “um modo de abraçar ou concretizar possibilidades, um processo de interpretar o corpo”. O debate sobre o tema visa desconstruir a padronização do  modelo  biológico e anatômico para definir sexualidade, considerando  a constituição da identidade e do gênero uma orientação dinâmica  atravessada pela construção da história pessoal, das relações  e da cultura.

François Ozon foi ousado, mas de maneira delicada conduz o espectador a pensar e refletir sobre as implicações dos desejos e escolhas feitos pela vida. Denuncia também as hipocrisias sociais, os tabus que tendem a inibir infinitas saídas psíquicas. Como uma obra inacabada, caminhamos pela vida na busca de soluções mais ou menos criativas para nossas angústias. Em nossos projetos de vida, o amor, o trabalho e os relacionamentos podem permitir a concretização de alguns sonhos, mas trazem sempre à luz as arestas da realidade.  Nesta luta, cada novo desafio pode ser visto como tentativa da reinvenção de nós mesmos, numa trajetória de aprendizado.  Como diz Butler, “como corpos, nós somos sempre algo mais, e algo outro, do que nós mesmos”.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de dezembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento: http://bit.ly/1TuMU8h

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