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O elo do silêncio

Estudo sugere que a fala humana evoluiu de uma linguagem primata ancestral, baseada mais em expressões faciais do que em sons

agosto de 2012
© GONÇALO VIANA
Quando comparamos a linguagem humana aos sistemas de comunicação de outros animais, nossa complexidade salta aos olhos. Combinando com grande liberdade um repertório de poucas dezenas de fonemas, somos capazes de produzir milhares de palavras para nomear tudo que nossa mente consegue perceber, fazer e pensar. Os defensores do excepcionalismo humano argumentam que nada parecido existe em nossos parentes mais próximos, os símios africanos. Apesar de limitado, nosso repertório fonêmico é grande o bastante para gerar uma explosão de possíveis combinações, o que só é possível por causa de um aparato fonador especializado. Ainda que bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotangos vocalizem durante suas interações sociais, não apresentam um repertório de palavras capaz de representar a variedade de objetos do mundo. Eles contam, claro, com sinais vocais relacionados ao humor, além de muitos gestos e expressões faciais para comunicação de curta distância. No excêntrico teatro símio, o silêncio é de ouro.

Grande parte da elite acadêmica, das ciências biomédicas às humanas, sustenta que a linguagem é a principal linha divisória entre nós e todos os outros animais. Isso faz da expressão verbal humana um mistério evolutivo, sem elos filogenéticos com qualquer outro sistema de comunicação animal. Segundo uma teoria alternativa, defendida há décadas pelo biólogo Peter MacNeilage, a linguagem vocal humana evoluiu através da modificação de movimentos rítmicos faciais realizados por nossos ancestrais primatas. Infelizmente as estruturas necessárias para a produção da fala não se fossilizam, fazendo da abordagem comparativa uma necessidade. Entre os primatas do velho mundo, destaca se uma expressão facial de afiliação chamada abre-fecha labial. Caracterizado por movimentos verticais da mandíbula, esse comportamento quase inaudível é dirigido a outro indivíduo durante interações face a face, envolvendo troca de turnos como num diálogo.

Uma característica fundamental da fala humana é um ritmo em torno de 5 Hz (hertz) relacionado com a taxa de produção de sílabas. Se a fala evoluiu de movimentos faciais rítmicos, seria de esperar que o abre-fecha labial também apresentasse um ritmo próximo a 5 Hz. Para investigar a questão, pesquisadores das Universidades de Princeton e Viena filmaram em raios X os movimentos bucais de macacoscaranguejeiros enquanto realizavam abre-fecha labial ou mastigação.

Embora à primeira vista o abrefecha labial pareça envolver simplesmente a abertura e o fechamento dos lábios, a pesquisa mostrou que o comportamento requer movimentos rápidos e coordenados dos lábios, língua, mandíbula e do osso hioide. Os autores, entre os quais o médico, matemático e neurocientista brasileiro Daniel Takahashi, descobriram que esses movimentos ocorrem 5 vezes por segundo, quase o dobro da velocidade dos movimentos de mastigação. Além disso, análises matemáticas mostraram que os distintos componentes do aparato fonador se articulam durante o abre-fecha labial de modo muito semelhante ao da fala humana. Considerando que os macacos-caranguejeiros são primatas asiáticos que divergiram de nossa linhagem há quase 30 milhões de anos, os resultados sugerem que a fala humana evoluiu a partir de uma linguagem primata ancestral, baseada menos no som do que nas expressões faciais. Talvez a excepcionalidade do Homo sapiens não seja a linguagem e sim o barulho.