Mente Cérebro
Clique e assine Mente Cérebro
Notícias

O encontro entre Dom Quixote e Bispo do Rosário

Em O homem de La Mancha, Miguel de Cervantes é internado em um manicômio e cria uma peça para “loucos”. A estética é inspirada nas obras do artista brasileiro que viveu em um centro psiquiátrico

dezembro de 2014
Divulgação

Nos anos 30, o brasileiro Arthur Bispo do Rosário sofreu um surto psicótico e invadiu um mosteiro dizendo ser um emissário de Deus. Depois disso, viveu internado por mais de meio século em um manicômio no Rio de Janeiro, onde produzia discretamente suas obras de arte, com restos de roupa e material achado no lixo. Dom Quixote, o protagonista de um dos maiores clássicos da literatura, enlouqueceu na meia-idade e, influenciado por romances de cavalaria, decidiu tornar-se um cavaleiro andante na Espanha.

O artista plástico e o personagem do romance escrito no século 17 são as principais referências do musical O homem de La Mancha

A produção é uma adaptação brasileira do ator e dramaturgo Miguel Falabella para o texto de Dale Wasserman, apresentado originalmente na Broadway. O protagonista não é Quixote, mas seu criador, Miguel de Cervantes. A narrativa começa com a internação do escritor em um manicômio no Brasil dos anos 30, com o diagnóstico de idealista. Ao chegar, tem seus pertences confiscados pelo Governador – um interno que lidera os outros, nitidamente inspirado na figura de Bispo. Entre suas coisas está um manuscrito, o único bem com que na verdade ele se preocupa.

Com a ajuda de seu criado Sancho, Cervantes tenta convencer o Governador a devolver seus escritos. Para isso, organiza uma peça para ser encenada por todos os internos do hospício sobre um fazendeiro aficionado por literatura medieval que fica demente e acredita ser um cavaleiro: Dom Quixote, destinado a cavalgar pelo mundo combatendo as injustiças. 

O texto evoca aspectos essenciais da vida de Bispo e do caráter do personagem Quixote. O artista acreditava ter a missão de, no Juízo Final, mostrar a Deus como eram as coisas do mundo. Com essa ideia, criou obras emblemáticas, como o Manto da apresentação – uma capa que vestiria no encontro com o Criador, na qual teceu os nomes de pessoas que ele achava dignas de salvação.

Com figurino inspirado nessa peça, o Governador do texto de Falabella é um interno respeitado no manicômio – a exemplo do próprio Bispo, que era “xerife” de pavilhão na Colônia Juliano Moreira e ajudava os enfermeiros a controlar pacientes em surto. Indiferente ao sucesso de suas obras, que adquiriam cada vez mais valor no mercado da arte, Bispo morreu confinado sozinho em sua cela em 1989. Quixote, enlouquecido pelo desejo de reconhecimento, precisou percorrer um país para, num lampejo final de lucidez, concluir que neste mundo não há heróis. 

Leia mais

O caso de Dom Quixote
A obra de Cervantes, escrita há 400 anos, mantém-se um desafio tanto para médicos quanto para psicanalistas

As artes de Arthur Bispo do Rosário
Com diagnóstico de esquizofrenia-paranóide, ele viveu recluso por meio século e morreu há 20 anos, mas sua obra atravessou os muros da instituição psiquiátrica e obteve reconhecimento