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O enigma da negação

Entre os mais importantes livro de Freud, A negação ganha nova edição em português

abril de 2014
Divulgação
Embora seja curto, o texto A negação, escrito por Sigmund Freud, é bastante denso, provavelmente, um dos mais importantes da vasta obra do criador da psicanálise. Justamente por isso é tão bem-vinda a chegada às livrarias da edição cuidadosa, em capa dura, lançada pela Cosac Naify, com tradução e comentários de Marilene Carone.

“Não deixa de ser intrigante o desdém com que Freud fala de algumas de suas pequenas obras-primas, entre as quais as densas cinco páginas de A negação, até hoje fecundas e estimulantes para estudiosos das mais diversas filiações pós-freudiana”, escreve Marilene, no artigo “Um claro enigma de Freud”, publicado primeiramente em 1983, na revista Discurso, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH – USP) e reproduzido agora. O volume apresenta ainda um posfácio inédito de Vladimir Safatle, além de uma entrevista feita pelos psicanalistas Márcio Peter de Souza Leite e Oscar Cesarotto com o matemático e filósofo brasileiro Newton da Costa, especialista em lógica.

Nesse trabalho escrito em 1925, Freud incorporara o conceito de pulsão de morte havia pouco tempo em sua teoria e mais uma vez busca bases em sua experiência clínica para construir a teoria: parte da palavra “não”,  presente em relatos de seus pacientes, para discutir temas como subjetividade e objetividade, representação e percepção, real e não-real, e a própria origem do pensamento.

Podemos pensar a negação como a tentativa de não aceitar na consciência algum fato que perturba o ego. Temos a tendência de fantasiar que certos acontecimentos não são, de fato, como são, ou que na verdade nunca aconteceram. Essa ilusão pode tomar várias formas, algumas das quais podem parecer pouco racionais para quem observa de fora – mas fazem sentido para o sujeito que se vale dessa forma de se defender contra conteúdos angustiantes.

A negação é o segundo volume da coleção em formato de bolso. O primeiro, Luto e melancolia, também traduzido por Marilene Carone, foi lançado há dois anos. A psicanalista morreu em 1987, aos 45 anos, quando se preparava para traduzir as obras completas de Freud. O projeto havia sido idealizado após uma polêmica a respeito da distorção de conceitos apresentados pela standard edition. Nos dois últimos anos de vida de Marilene, ela e Paulo César de Souza (que atualmente se dedica à tradução da obra freudiana pela Companhia das Letras) comentaram regularmente, no jornal Folha de S.Paulo, os erros que encontraram na então única edição autorizada de Freud no Brasil, feita do inglês. Os artigos foram posteriormente traduzidos e publicados na Revue Internationale de l’Histoire de la Psychanalyse.

A negação. Sigmund Freud. Cosac Naify, 2014. 80 págs. R$ 39,90.