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O enigma do vestido

Neurocientistas e psicólogos depararam com um fenômeno perceptivo no qual pessoas enxergam de forma diferente o mesmo objeto sob as mesmas condições de visualização

outubro de 2015
BRADLEY PEARCE AND ANYA HURLBERT NEWCASTLE UNIVERSITY (ILUSTRAÇÃO DO VESTIDO)

Stephen L. Macknik, Susana Martinez-Conde e Bevil R. Conway

 

Há pouco tempo, um vestido virou sensação nas redes sociais. Tudo começou quando uma mãe orgulhosa postou uma foto da roupa que planejava usar no casamento da filha. Mas, quando os noivos viram a imagem, não concordaram com as cores: ela enxergava branco e dourado, e ele azul e preto. Confuso, um amigo da moça postou a foto no Tumblr. Alguns seguidores respostaram no Twitter e a imagem teve um número recorde de visualizações e compartilhamentos – na gíria das redes, “viralizou”. O caso do vestido causou comoção; chegou a provocar discussões virtuais acirradas entre celebridades. A comoção foi tão grande que não seria difícil imaginar que tivesse sido causada por uma espécie de fada madrinha brincalhona.

Na tentativa de resolver o enigma, a mídia abriu espaço para que diversos neurocientistas e psicólogos comentassem o assunto. Nosso orgulho como cientistas, produtores de conhecimento relevante para a sociedade, deu lugar a certo desconforto quando percebemos que nossas explicações para a guerra de cores não só eram diversas, como também incompletas. Especialmente desconcertante foi o fato de que as pessoas enxergavam de forma diferente o mesmo objeto sob as mesmas condições de visualização. Essa curiosa inconsistência sugeria um novo tipo de fenômeno perceptivo, desconhecido pelos cientistas até então.

Embora algumas explicações iniciais para a ilusão focassem diferenças individuais na estrutura ocular (como o padrão e a função dos bastonetes e dos cones de células fotorreceptoras ou as propriedades de filtragem de luz interna), os mecanismos de processamento de cor  cerebrais (que costumam variar de uma pessoa para outra e depender de crenças e experiências anteriores) podem ser a principal razão.

Podemos, por exemplo, deduzir de diferentes maneiras a constância da cor – o fenômeno que nos permite enxergar continuamente o mesmo tom de um objeto apesar das mudanças das fontes de brilho. Tipicamente, a iluminação natural vem da luz solar direta e dourada ou do céu azul. Assim, nossa percepção supõe que a maioria dos tons tem influência dessas cores. Quem olha o vestido tende a acreditar que o tecido, portanto, seja iluminado a partir dessas nuances. Se os observadores concluem, mesmo inconscientemente, que o azul do céu é a fonte de brilho, o cérebro subtrairá esse tom da percepção da imagem, e a roupa parecerá branca e dourada. Já aqueles que concluem que o tecido é iluminado pelo sol omitirão o amarelo da imagem e, consequentemente, enxergarão a peça azul e preta. Ou seja, haveria um componente na percepção dos tons.

Antes dessa descoberta, muitos cientistas acreditavam que pessoas com visão comum experimentavam ilusões de cor de maneira semelhante. Em exemplos anteriores de imagens ambíguas, as formas eram posicionadas de modo que causassem determinados efeitos, como no quadro em que é possível visualizar um vaso ou duas pessoas na mesma imagem. No entanto, esse tipo de ilusão difere da do vestido em um aspecto fundamental: somos capazes de mudar a percepção do vaso para um rosto com alguma facilidade; no caso da roupa, porém, parece que enxergamos somente uma cor ou outra. Estranhamente, essas diferenças talvez sejam inconciliáveis. É como se o vestido tivesse nos presenteado com uma nova divisão na humanidade (que não tem a ver com dicotomias clichês, como “copo meio cheio versus copo meio vazio” ou “cães versus gatos”). Será que as pessoas têm percepções distintas sobre a cor da fonte de luz? Ou talvez em relação ao tipo de tecido (brilhante ou fosco) de que a roupa foi feita?

Talvez mais do que qualquer observação perceptual anterior, o vestido demonstre que podemos ver o mundo de maneiras muito diferentes, dependendo daquilo que o cérebro de cada um capta. Embora grande parte das diversas interpretações continue a ser um mistério para a ciência, laboratórios de vários lugares do mundo prosseguem os experimentos para tentar desvendar o enigma. Confira o resumo de algumas das teorias mais promissoras até agora – os leitores mais curiosos podem visitar nosso blog, llusion Chasers (Caçadores de ilusões), em http://blogs.scientificamerican.com/illusion-chasers/.

 

Leia a matéria completa, O enigma do vestido, publicada na edição de setembro de Mente e Cérebro, disponível na Loja Segmento:http://bit.ly/1Xgizxu

 

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