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O espetáculo da histeria

Adaptação do livro A lição de Charcot remonta às primeiras elaborações de Sigmund Freud sobre o inconsciente

abril de 2012
Divulgação
As aulas do professor de medicina Jean-Martin Charcot eram as mais concorridas do hospital La Salpêtrière, em Paris. Não apenas por médicos recém-formados, mas por funcionários da instituição e um ou outro leigo, curiosos em presenciar os “espetáculos” protagonizados pelas pacientes estudadas. Eram geralmente mulheres jovens que, em uma espécie de estado hipnótico induzido por Charcot, retesavam o corpo, contorciam-se, diziam palavras sem sentido. A hysteria (tida desde a Antiguidade como uma inflação do útero) era um quadro de sintomas que intrigava pela ausência de causas orgânicas aparentes e pela estreita relação com o sobrenatural – as manifestações do distúrbio alimentavam o imaginário da população, que as associava a possessões demoníacas e feitiçarias.

Um dos alunos que compareciam às demonstrações de Charcot era Sigmund Freud, um jovem medico austríaco particularmente interessado nos delírios das pacientes durante as crises histéricas. Ele foi o primeiro a cogitar que os sintomas físicos refletiam dores psíquicas e faziam parte de uma “teatralização” originada da repressão de desejos.

Abram-se os histéricos, montagem da Cia. Inconsciente em Cena, retrata o olhar da medicina e da sociedade europeia do final do século 19 sobre o distúrbio que inspirou as primeiras ideias a respeito da existência do inconsciente. Baseada no livro A lição de Charcot (Zahar, 2005), do psicanalista Antônio Quinet, autor também do texto teatral, a peça retrata diferentes visões sobre os sintomas, como a teoria do pitiatismo, defendida pelo neurologista Joseph Babinsky, que acreditava que o histérico era um farsante, e a “outra cena”, como Freud denominava conflitos do passado e dores psíquicas que emergiam no corpo.

Augustine, Blanche e outras internas do La Salpêtrière têm suas célebres crises revividas na linguagem do “teatro coreográfico”, que retrata com intensidade a teoria freudiana de que “o corpo é o palco onde o inconsciente se manifesta”. Cada crise histérica é encenada simultaneamente à “outra cena” subjacente a ela, isto é, fantasia criada por causa de um drama do passado. “A peça reproduz o contexto da descoberta do desejo inconsciente na histeria, mesclando-o com elementos contemporâneos para mostrar que ela ainda contamina as artes, as relações sociais e nossos gestos cotidianos”, diz Quinet.

Abram-se os histéricos. Centro Cultura Justiça Federal (CCJF). Avenida Rio Branco, 241, Centro, Rio de Janeiro. Informações: (21) 3261-2550. Quartas e quintas, às 19 h. R$ 30. De 12 de abril a 19 de maio.