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O lagostim também sonha

dezembro de 2004
Lagostins fluviais de fato dormem
Ao ver um lagostim (ou pitu) flutuando inanimado dentro de um aquário, a criança pergunta assustada à mãe se ele está morto. "Que nada, está só dormindo", responde ela, numa mentira bem-intencionada. A mãe pode não estar errada. Lagostins fluviais de fato dormem, e ao fazê-lo flutuam na água.

Aquilo que até agora só se conhecia nos mamíferos e em algumas espécies de aves foi detectado pela equipe de Fidel Ramón, da Universidade Nacional, na Cidade do México, também em invertebrados: o sono. No sono verdadeiro, freqüên-cias mais rápidas, identificadas nos seres humanos como sono REM (do inglês Rapid Eye Movement, movimento ocular rápido), alternam-se regularmente com outras mais lentas.

Os biólogos mexicanos observaram que lagostins vermelhos (Procambarus clarkii) subitamente boiavam inertes na superfície da água, com o corpo de lado, passando várias horas por dia nessa posição. Para verificar se realmente dormiam, os cientistas registraram suas ondas cerebrais por meio de eletrodos. De fato, enquanto boiavam, seu eletroencefalograma assemelhava-se ao dos mamíferos na fase de sono profundo.

Para entender melhor o processo, a equipe acordava sistematicamente os sonolentos lagostins. Como isso atrasava seu sono, assim que podiam os crustáceos dormiam períodos ainda maiores, o que foi considerado pelos biólogos como mais um indício de que se tratava de verdadeiras pausas de sono.

Fases cíclicas dedicadas à regeneração são indispensáveis para muitos animais, como demonstram experimentos com as mosquinhas Drosophila melanogaster. Os pequenos insetos morrem em pouco tempo, se não puderem descansar. Porém, a necessidade de tranqüilidade pode entrar em choque com outras funções importantes para a sobrevivência, de modo que, com o de-cor-rer da evolução, surgiram formas exóticas de sono, como a dos golfinhos, que conseguem ter um dos hemisférios cerebrais em sono profundo, enquanto o outro permanece em perfeita vigília. Certas aves migratórias renunciam ao sono durante suas longas viagens, deixando para dormir após a chegada.

PNAS 101(32), 2004, pág. 11857