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O mundo simbólico dos macacos-prego

Estudo demonstra que esses primatas conseguem associar representações a objetos reais

julho de 2008
©MAJOROS LASZLO/ISTOCKPHOTO
Exercício mental provoca forte carga cognitiva e causa tensão no animal
A representação simbólica é um dos principais atributos cognitivos que viabilizaram a linguagem humana. Sabe-se que nossos parentes mais próximos, como chimpanzés e gorilas, são dotados de alguma capacidade nessa área, mas pela primeira vez cientistas demonstraram que os macacos-prego (Cebus apella), primatas filogeneticamente mais distantes, de alguma forma também podem compreender o significado dos símbolos. O estudo foi publicado na revista PLoS One e é assinado pela equipe de uma das mais importantes primatologistas do mundo, a italiana Elisabeta Visalberghi, do Instituto de Ciências Cognitivas e Tecnológicas de Roma.

O experimento consistiu na oferta de três tipos de alimentos aos animais, em duas situações: apresentando o alimento mesmo ou cartões com símbolos que os animais aprenderam previamente a associar aos respectivos alimentos. A estratégia foi verificar se as escolhas destes animais se aplicavam ao conceito de transitividade, segundo o qual se A é melhor que B e B é melhor que C, então A é necessariamente melhor que C. Esse foi justamente o raciocínio dos macacos-prego frente à oferta de alimentos reais (o que já era esperado), bem como durante a apresentação dos cartões, principal resultado do estudo.

As diferenças quantitativas entre as duas modalidades de escolha também surpreenderam os pesquisadores, porque os animais atribuíram maior valor a alguns alimentos apenas na sua versão simbólica. Exemplo: se na apresentação real, eles só trocavam um pedaço de queijo A por dois pedaços de queijo B, no jogo com os cartões, o primeiro só era equivalente a pelo menos quatro pedaços do segundo.

Ainda que estas diferenças quantitativas não sejam bem compreendidas pelos pesquisadores, eles vêem os resultados gerais como provas irrefutáveis de que o macaco-prego, maior primata das Américas, possui os circuitos cognitivos necessários para a representação mental de símbolos, ainda que estejam longe de expressar essa capacidade de forma completa. Os estudiosos ressaltam também que esse tipo de exercício mental provoca uma grande carga cognitiva nos animais, que se traduz em irritação com a imposição de repetições exaustivas, o que também é observado em crianças pequenas submetidas a experimentos semelhantes.